Jorge Castelo - Treinador, Professor Universitário, Formador UEFA e Comentador

José Mourinho, Rui Vitória e José Peseiro são alguns dos treinadores que orientou ao longo da sua carreira.

Jorge_Castelo_ArticleTreinador, Professor Universitário, Formador UEFA e Comentador, Jorge Castelo iniciou a sua carreira como treinador de Futebol no C.F "Os Belenenses" com Carlos Queirós e conta com passagens por vários clubes, como é o caso do Sporting CP, SL Benfica, Gil Vicente FC, entre muitos outros.

Para além das tarefas anteriormente descritas, Jorge é também autor de vários livros e artigos onde explica a lógica da ação do jogador em contextos situacionais de cooperação e oposição.

 

GM – Gonçalo Moura (Entrevistador); JC – Jorge Castelo






GM  -  Professor Jorge Castelo, boa tarde. Obrigado por nos receber. Queria começar por perceber quem é o professor, do ponto de vista profissional. A maior parte das pessoas já o conhece, mas uma descrição sua sobre o seu percurso, os seus títulos e o que faz no futebol.

JC  -  Sou um apaixonado pelo futebol. Depois, tento conciliar a parte de estudo com a parte de experiência. Fui capaz de, durante muitos anos, encontrar um equilíbrio entre tudo isto, ser professor universitário e cumprir as suas prioridades ao fazer a carreira de docente, enquanto trabalhava em clubes profissionais. Consegui conciliar essas duas coisas, mas a família sofreu. Fui fazendo várias coisas dentro do futebol. Fui treinador adjunto, treinador principal, fui, durante dezoito ou dezanove anos, formador dos treinadores através da Federação Portuguesa de Futebol, do terceiro e do quarto nível. Foram dezoito anos a trabalhar. Fiz também, com outros colegas, a reestruturação dos conteúdos programáticos da formação dos treinadores. Acho que para muitos dos treinadores conhecidos, que estão fora de Portugal e têm muitos êxitos, nem tudo dependeu da sua formação. Mas tenho a certeza absoluta que a maioria ganhou muito com isso. Por exemplo, ganharam o poder de trabalhar em vários países porque como estamos ligados à UEFA e cumprimos as suas normativas, eles podem trabalhar em todo o mundo, o que é fundamental. Depois, com as vitórias, principalmente com as de José Mourinho, os portugueses começaram a ter um largo espectro de possibilidades em diferentes países. Esta foi outra parte do meu percurso. Depois, como qualquer treinador, ter a sorte, o insucesso, ou os vários insucessos, e a possibilidade de trabalhar no futebol. Mas, principalmente, ter a liberdade de dizer que não. Esta é talvez, para mim, a palavra mais importante do treinador. Perante uma certa circunstância, é ter sempre a possibilidade de dizer que sim ou que não. Quando um treinador só tem uma opção, dizer que sim, vai ter grandes problemas no futuro. Se não tiver a sua independência, vai aceitar qualquer coisa que lhe vai aparecer. Portanto, acredito que muitos jovens, no início, são capazes de esquecer as suas convicções, as suas ideias. Depois, pensam em recuperá-las, um pouco mais tarde, quando podem ter mais independência e mais capacidade para encarar qualquer contexto e dizer o que deve ser dito em cada momento.

Portanto, a minha vida foi sempre assim. Aproveito o facto de o futebol estar relacionado com vários elementos. Uma das coisas que, por vezes, faço é vir aqui à A Bola passar alguma informação de bastidores. Passei por muitos clubes, desde o topo até a meio da tabela. Cada um tem o seu contexto, a sua filosofia, os seus problemas e temos de trabalhar sobre estas questões para valorizar o património do clube porque não nos podemos esquecer de uma coisa fundamental: quando um treinador vai para um clube é para valorizar o património do clube. E pode fazê-lo através das vitórias, da valorização dos jogadores, da valorização do nome do próprio clube. E, muitas vezes, esquecemo-nos destes elementos.

 

GM  -  Que qualidades deve um treinador ter para integrar uma equipa técnica no futebol principal, hoje em dia?

JC  -  A principal qualidade é termos uma mente aberta relativamente ao que acontece à nossa volta, porque o mundo está constantemente a mudar. Os jogadores estão constantemente a mudar, assim como as exigências. Todo o treinador tem de ter uma mente aberta sabendo perfeitamente que existe um caminho, ou vários caminhos, para atingir o sucesso. E esses caminhos devem ser trilhados através de estudo, observação, treino e de uma enorme capacidade de comunicação com os jogadores. Fazê-los entender bem a mensagem que se pretende passar e ter coerência porque isso é a base da comunicação, não é hoje dizer uma coisa e amanhã dizer outra.

GM  -  E que funções são importantes, hoje, numa equipa técnica profissional?

JC  - A equipa técnica profissional precisa de ter profissionais de várias áreas. Mas é o treinador que gere todos esses elementos, é ele que toma a última decisão depois de ouvir os diferentes elementos da equipa técnica. O problema é quando o gestor deste conhecimento sabe tudo e não precisa de mais ninguém, não ouve ninguém, ou ouve em demasia. Aí, é como uma flor de papel que anda ao sabor do vento, de um lado para o outro, porque está a ser influenciado por várias opiniões. E não é capaz de tomar decisões sozinho, por falta de conhecimento, de personalidade, ou por incapacidade de compreender os problemas.
Os jogadores são muito inteligentes. Isso é algo que já percebi há muito tempo. Eles sabem perfeitamente onde está o poder. Onde está a pessoa que mais os podem influenciar a impor-se dentro do seu grupo.

GM  -  E que elementos são necessários? Se hoje tivesse de aceitar um desafio, com quem é que trabalharia ou com quem se fazia acompanhar para um projeto?

JC  -  Neste momento, existe um grande desequilíbrio entre a parte técnica e a parte de observação. O grupo de observação é muito importante porque traz informação pertinente para o treinador e, normalmente, tem sete ou oito pessoas. Já a parte técnica só tem três ou quatro. Precisamos de mais elementos na observação porque funcionamos com informação que tem de ser fidedigna. Portanto, os observadores têm de saber o treinador pretende. E é isso que eles têm de ir buscar porque um jogo de futebol gera muita informação. Mas alguma não tem interesse nenhum. Interessa ir buscar a informação que é pertinente e útil, do ponto de vista da prática e da competição. Este é um elemento fundamental ter um departamento de observação e análise, não só ligado à competição, mas também ligado ao treino. Na minha perspetiva, o treino também deve ser filmado para ser analisado porque, muitas vezes, os exercícios não funcionam tão bem. Ou então funcionam muito bem e podemos perder algumas noções. Por isso é que este é um elemento muito importante.

Depois temos a parte médica. É fundamental ter médicos ou fisioterapeutas de qualidade. Pessoas que conseguem preparar os jogadores em três ou quatro, em vez de sete, porque competição é tempo e os jogadores não podem estar muito tempo parados. É preciso ter um departamento médico à altura.

Depois ter um departamento de scouting. Ou seja, estar sempre a preparar o futuro. A qualquer momento pode faltar um jogador e precisamos de ter opções. Nesta janela de mercado, viu-se a quantidade de jogadores que foram transferidos.

Por fim, o núcleo duro, que são os elementos da parte mais técnica. O treinador principal, os treinadores adjuntos, é importante ter dois adjuntos e o treinador de guarda-redes porque é um treino mais específico e particular. Não sou muito adepto dos preparadores físicos. Prefiro ter uma pessoa que controle o processo do treino, ou seja, a fadiga, do que propriamente alguém que tem esse tipo de intervenção sobre os jogadores. A minha perspetiva, desde os meus primeiros anos na universidade, tem sido que tudo o que fazemos no treino deve ter todos os elementos fundamentais do ponto de vista físico, técnico, psicológico, tático e estratégico. Em certos momentos, podemos dar mais ênfase a uma parte do que a outra, mas não podemos desagregar a metodologia do treino. Várias pessoas, que não percebem muito de treino, perguntam: “Para treinar futebol o que é que é preciso fazer?”. Eu respondo, “É treinar futebol.”. O pianista para praticar não corre à volta do piano, toca piano. Nem faz flexões na ponta dos dedos para ganhar mais força na ponta dos dedos. Também não vejo um corredor de maratona a treinar com uma bola, vejo-o a correr. Portanto, no futebol, o que temos de fazer é treinar futebol. Que tipo de futebol? Essa já é outra questão. Tendo um modelo de jogo, temos de treinar o que queremos que a nossa equipa faça no final da semana.

GM  -  De que forma é que um treinador deve gerir a sua imagem para promover os seus serviços?

JC  -  Na atualidade, a melhor forma de promover a nossa imagem é ter uma empresa que o faça. Depois, uma das coisas que é fácil associar à nossa imagem é ter bons resultados. Mas também já vi treinadores com bons resultados e sem imagem. Vivemos no mundo da imagem, por isso é importante ter pessoas que tratem da nossa. Olhamos para os políticos e é a mesma coisa. Eles sabem-no perfeitamente. Alguns têm algumas dificuldades, em termos de comunicação, mas depois têm uma máquina de imagem por trás deles que é capaz de os guiar. Mas, muitas vezes, não basta ter tudo isto. Também temos de ter a capacidade de confrontar os jornalistas, os pais, os empresários, os diretores. Termos a capacidade de convencer que o caminho deve ser feito por um lado e não por outro. Portanto, existem várias formas de criar essa imagem. Há uma coisa que defendo sempre, temos de ser nós próprios. Os outros podem construir-nos uma imagem pior ou melhor, mas temos de ser nós próprios. Quem não for assim, vai chegar ao final da carreira e dizer: “Enganei-me. Andei a viver uma imagem que não era a minha.”, e talvez se sinta um pouco triste.

GM  -  Como é que a sua vida mudou, desde que se tornou profissional de futebol?

JC  - Comecei a passar horas e horas no clube. Ainda sou do tempo em que os treinadores iam ao clube, davam o treino e iam para casa. Ou então ficavam no clube, davam uma entrevista e iam embora. Quando eu via isto, ficava a pensar no porquê de nas outras profissões as pessoas trabalharem oito ou nove horas e um treinador de futebol passar duas, três horas no clube. Nunca vi grande lógica nisso. Então, ficava bastante tempo, muitas vezes sem saber o que fazer, até que fui percebendo: “E se for analisar o treino? Ou organizar o dossier de treino? E se for estruturar os exercícios perante uma taxonomia ou uma classificação que me possa ajudar no dia a seguir a organizar e estabelecer uma coerência entre o que faço hoje, o que vou fazer amanhã e depois de amanhã? Porque é que não vou observar o adversário?”. Naquele tempo, isso não era habitual. Nós tínhamos os jogos filmados na televisão e depois no betamax que tinha a história do jogo e podia parar e ver as vezes que quisesse o que tinha acontecido numa certa situação. Lembro-me, perfeitamente, quando comecei a ser professor universitário, todos os alunos que tive, muitos deles conhecidos, o José Mourinho, o Rui Vitória, o José Peseiro, todos eles tiveram aulas em que trabalhávamos com o que víamos. Não vale a pena inventar o que acontece se temos aqui mecanismos que nos mostram o que aconteceu. Claro, começámos pela visão quantitativa e depois passámos para a qualitativa. Portanto, muitos deles gostavam, outros odiavam, mas acho que era um trabalho importante.

GM  -  O que é que o surpreendeu mais quando começou a entrar nos contextos profissionais? Foi completamente diferente do que imaginava ou já estava preparado?

JC  -  Não sei se estava preparado. Quando as coisas vão acontecendo devagar, não há grandes choques. Se tivermos uma mente aberta, não há grandes choques mas se tivermos uma mente fechada, há. Devemos ter uma mente aberta e entender, primeiro, o contexto onde estamos inseridos. O tipo de relações que existem entre os jogadores, entre estes e os diretores, entre os jogadores e os treinadores. Depois, entre os treinadores e os dirigentes, os treinadores e os jornalistas e vice-versa. Muitas vezes ouvimos: “É preciso bloquear o balneário.”. Mas isso é quase impossível, neste momento. As redes sociais têm um impacto tão grande que se pode passar muita informação. A um jornalista ou a um amigo. Ou o amigo passa a um jornalista e este passa a outro e depois, no fim, já nem se sabe a verdade dos factos. É muito difícil fechar um balneário. Mas, naturalmente, é preciso fazê-lo, mesmo sabendo que vão sempre haver fugas de informação. Mas é tentar limitá-las ou então fazer com que sejam uteis ao próprio clube. Depois, também se pode fazer contrainformação. Isso foi algo que aprendi a fazer. A contrainformação é útil porque permite que os jogadores e os treinadores se possam abstrair. Enquanto a notícia vai para um lado, nós sabemos que estamos a ir por outro.


GM  -  Que cuidados deve ter um treinador ao passar a sua mensagem ao plantel?

JC  - Deve ser o mais verdadeiro possível. E estou a referir-me a uma visão coletiva. Depois deve manter a comunicação a nível individual que é fundamental porque lidamos com jogadores de diferentes origens e que falam idiomas diferentes. Quando estive no Sporting tínhamos jogadores espanhóis, russos, holandeses, chilenos, portugueses e brasileiros. Tínhamos seis ou sete jogadores de diferentes países em diferentes continentes. É difícil coordenar isto tudo. Então devemos comunicar coletivamente, a nível setorial, com os jogadores do mesmo setor, e por fim, concentramo-nos na comunicação individual.
Na atualidade, um dos aspetos fundamentais para o treinador é a comunicação que ele pode ter com os jogadores. Principalmente, ter uma comunicação honesta, direta e compreensível para que o jogador nem crie expectativas a mais, nem a menos. Queremos que tenham uma boa autoestima e que tomem boas decisões. E, ao mesmo tempo, que tenham os pés bem assentes na terra porque, no futebol, as coisas podem mudar a qualquer momento.

GM  -  E quando os resultados são negativos?

JC  - Quando são negativos, temos sempre uma oportunidade.

GM  -  Qual é a estratégia que o treinador pode utilizar?

JC  - Mesmo na dificuldade, temos sempre oportunidades. Muitas vezes, isto obriga-nos a ter um olhar diferente. E não há dúvidas nenhumas que estamos muito mais pressionados. Tanto aí, como nos momentos positivos é preciso rever o que estamos a fazer. Depois, claro, temos de ter noção de que trabalhamos com seres humanos e não com máquinas. São seres humanos que têm alma, pensamento, aspirações legítimas, família, amigos, empresários, e todos eles dizem coisas diferentes. E, muitas vezes, os que são mais frágeis, do ponto de vista da sua personalidade e capacidade, são os mais vulneráveis. Nesses casos, é o treinador que tem de os proteger mais.
Vou-vos dar um exemplo, que ainda não chegou a Portugal, mas já chegou a muitos outros países. Quando digo que não chegou a Portugal é porque ainda não tem grande influência. Os Personal Trainers (PT). Neste momento, há muitos jogadores que, para além do treino normal, têm um PT.

GM  -  Qual é a sua opinião?

JC  - O PT não vê o treino e não sabe o que o jogador fez. Pode estar a exigir-lhe alguns exercícios que são analíticos, do ponto de vista físico, e que podem ser contra procedentes em relação ao que o treinador está a fazer. Isto gera um enorme número de conflitos. Em quem é que o jogador vai acreditar? No treinador ou no seu PT? É ele que está mais com o jogador. Já não é só o seu PT, é o amigo, é o confidente, o psicólogo. E isto, um dia vai explodir, num sentido positivo. Com certeza há PT que são pessoas conscientes mas há outros que não são e estão ali mais para ganhar o bom dinheiro que o jogador faz. Até porque eu não vejo PT com jogadores que tenham pouco dinheiro.

GM  -  De que forma é que trabalha e organiza o seu microciclo normal com jogo ao fim-de-semana?

JC  - Com seis dias de intervalo. Como vivemos num país em que toda a gente sabe de futebol, fiz um canal onde ponho muitas coisas e uma delas, até é das partes mais vistas, é sobre o microciclo. Eu tenho seis elementos fundamentais para cada um dos dias.

  • Primeiro: qual é o tema da sessão de treino? É de recuperação? De aperfeiçoamento? De aquisição? Há um tema.
  • Depois tenho os conteúdos temáticos para esse tema. Para trabalhar mais a organização da equipa talvez faça trabalho de setores ou intersectorial, etc.
  • Tenho um terceiro elemento fundamental: as componentes do método de trabalho. O tempo, a intensidade, a densidade, a relação esforço/pausa, de que forma é a intermitência do exercício, quantas vezes.
  • Depois tenho as componentes estruturais, que são as relações espaço-número. Se trabalhamos num espaço mais reduzido, obrigo os jogadores a tomar decisões mais depressa. Se trabalhamos em espaços maiores, os jogadores têm mais tempo para tomar decisões e executar as ações. Mas se puser um maior número de jogadores nesse espaço, normalmente, voltamos à primeira fase. Trabalho nessa relação espaço-número em que acelero ou desacelero esses processos.
  • O quinto elemento, são as fontes energéticas. Que tipo de fontes energéticas é que vou gastar? Mais anaeróbica? Alática ou lática? Sempre tentado evitar criar grandes constrangimentos em termos de fadiga. Ou se vou para a potência aeróbia ou para regimes aeróbios.
  • Por último, temos os parâmetros de contração muscular. Isto foi escrito em 1985 e aprendi com o Monge da Silva. Se nós modificarmos o espaço relativamente ao número, o número de contrações musculares são completamente diferentes. Agora até temos um GPS, que nos dá o número de acelerações e desacelerações, e podemos chegar ao final do treino e verificar se aquele tipo de contração muscular foi mais ou menos predominante.

Com estes seis elementos nós fabricamos cada unidade de treino de uma semana. E se jogarmos ao domingo, quem não joga, treina.

Costumo dividir por grupos e dentro de uma equipa temos, normalmente, cerca de cinco grupos. O grupo um com os jogadores que jogam mais de quarenta minutos; o grupo dois com aqueles que jogam, mas menos de quarenta minutos; depois temos o grupo três com os que foram convocados, mas não jogaram; o grupo quatro com os jogadores que, normalmente, jogam mas que por causa de cartões amarelos ou de uma pequena lesão, não jogaram; por fim temos o grupo cinco com aqueles que nunca são convocados e não jogam. Na brincadeira dizemos que é o grupo da baba porque estão sempre a babar-se para poder dar contributo à equipa.

Temos este cinco grupos trabalhamos com eles. Cada um deles tem necessidades diferentes mas isso não significa que temos no treino cinco grupos a trabalhar em diferentes espaços. Eles estão todos no mesmo espaço, mas uns vão fazer menostempo, uns vão trabalhar com mais intensidade, outros com menos e é aqui que está a “culinária” do treinador. A forma como ele conjuga todos estes elementos, tendo em conta às necessidades de cada jogador. Porque cada jogador é uma individualidade. Como é que lido, por exemplo, com os jogadores que são convocados e não jogam, no final do jogo? É o grupo mais difícil de controlar. No dia anterior não treinaram muito porque o treinador não sabe se os vai utilizar e não podem estar em fadiga no dia do jogo. Mas depois não jogaram, nem treinaram. Então, quando jogamos em casa, podemos juntar o grupo que não foi convocado com o grupo que não jogou. Mas fora é difícil porque não queremos estragar o campo do adversário. É preciso conjugar estes elementos porque eu gosto sempre que haja um dia de folga igual para todos. Normalmente, se forem jogar ao domingo, a segunda-feira é igual para todos. Acho que deve haver sempre um dia, no período competitivo, em que todos os jogadores folgam. Se houver seis dias de intervalo entre dois jogos, quero que todos folguem porque eles têm família, coisas para tratar, etc. E porque se treinaram de manhã, só quero que vão para casa por volta das três, quatro da tarde para poder controlar a nutrição e o descanso, depois do treino. Portanto, se estou no centro de treinos, treinamos de manhã e os jogadores comem todos juntos, descansam e depois podem ir para casa. Lá está, se treinasse todos os dias e eles fossem logo para casa, podia prescindir de um dia de descanso. Mas prefiro controlar isto desta forma. E isso significa o jogador chega de manhã, faz o treino complementar, o treino normal, almoça e depois vai para o quarto descansar. Não sei se ele está a descansar, se está a mandar mensagens ou ao telefone, mas pelo menos está no quarto dele. Depois, por volta das 15:30h, 16h vai-se embora.

Na terça-feira, temos o grupo um que vai fazer recuperação conjugada com os outros elementos que precisam de intensidade. Como os outros fazem a recuperação específica, imaginemos, se tenho onze jogadores e fiz três substituições, há oito jogadores que estão mais cansados. Se fizerem um oito contra quatro, qual é o problema? E quem são os quatro? Os quatro são os que menos treinaram. Portanto, vai-se conjugando, utilizando exercícios específicos do futebol para fazer a recuperação. Antes, pensava-se que a recuperação era fazer uma corridinha, massagens, jacúzi e estava feito. Às vezes até serve, mas se fizermos uma recuperação mais específica, conseguimos resolver mais problemas. Depois, à quarta-feira, juntamos a equipa toda. Quinta-feira é o momento mais importante da semana, porque é o que tem mais intensidade e o mais próximo da realidade competitiva. Sexta e sábado treinamos estrategicamente tendo em conta o que conhecemos do adversário. Estratégia significa fazer alterações pontuais e temporárias, que só funcionam para aquele jogo e para aquele momento. Portanto, não mudamos a nossa ideia de jogo. Ajustamos certos elementos relativamente ao conhecimento que temos do adversário para tirar o máximo de proveito das vulnerabilidades deles e para amortecer os seus pontos fortes. E é este trabalho que o treinador tem de fazer. Por isso é que os jogadores ficam até às 16h, enquanto o treinador fica até às 20h. Porque ele tem de trabalhar o dia seguinte e uma série de elementos para estar sempre preparado para todas as eventualidades.

GM  -  E essa parte estratégica, como é que é passada aos jogadores?

JC  - Normalmente, de duas maneiras. Através dos vídeos e do conhecimento dos adversários. Faço reuniões curtas, muito precisas.

GM  -  Coletiva?

JC  - Coletiva. Curta e coletiva. Há pessoas que acham que não é necessária, mas acho que 99% dos treinadores a fazem. Para conjugar todos os conhecimentos que os jogadores têm. Porque os jogadores conhecem os adversários e pode haver alguma coisa que precisa ser revista: “Aquele dribla muito para o lado direito. Aquele que eu vou apanhar, dribla muito para o lado direito.”. Mas isso pode não ser verdade. Entrei no Benfica em 87/88, e isto não se fazia. Os jogadores até ficavam aborrecidos porque não estavam habituados. Mas agora, se não tiverem até ficam admirados. Eles costumavam ficar aborrecidos, mas quando começaram a perceber quanto isto era bom para eles, começaram a querer mais. Em situações que o adversário gostava de driblar para fora para depois cruzar com o pé direito, dizíamos ao nosso lateral esquerdo: “Não te preocupes com a parte de dentro, preocupa-te com a parte de fora porque se o levares para aí, ele fica à rasca e não sabe o que fazer.”. Ou então os que jogam com o pé direito do lado esquerdo dizíamos para fechar o lado de dentro e dar o lado de fora. Estas particularidades até podem ser treinadas. Ou podemos pôr um jogador rápido num certo sítio. No fundo, o treino é uma simulação do jogo e se tivermos a capacidade de, em todos os momentos, confrontar o jogador com o que irá acontecer no próximo jogo, em termos de mapeamento do espaço neural, ou seja, o que é o mapeamento cerebral, ele vai ser melhor. Pelo menos, não vai ser tão surpreendido como poderia ser se fosse para lá sem qualquer noção. Naturalmente, em 90% dos casos acontece, mas há situações em que não.

GM  -  Porquê este local onde estamos?

JC  - A Bola tem uma grande história, uma história fantástica.

GM  -  E fez anos há pouco tempo.

JC  - Na verdade, foi A Bola TV que fez anos. A Bola tem uma história fantástica e eu aprendi futebol através do jornal. Isto foi há quarenta e tal anos atrás, mas, nessa altura, a grande referencia que tínhamos era ler o jornal. As pessoas que viviam fora das grandes cidades, de onde existia futebol, só tinham os jornais. E A Bola foi, para mim, um marco importante porque li muito. Depois, a vida trouxe-me até aqui. De vez em quando, convidam-me para vir aqui comentar.

GM  -  O professor já esteve algum tempo no estrangeiro. Quais é que são as principais vantagens e possibilidades que existem lá fora, mas não em Portugal?

JC  - Se estamos a falar em grandes países com grandes recursos económicos, é fantástico trabalhar aí  porque é tudo uma grandeza. Faço aqui um parenteses: quando tinha dezassete anos, deu-se a revolução. Quando era para entrar na faculdade, tive de fazer um ano cívico, isto é, esperar um ano para ir para a universidade. Então, fui para o Japão. Quando lá cheguei, parecia um burro a olhar para um palácio. As luzes, as estradas, os viadutos, comparado com Portugal, aquilo era uma coisa absolutamente anormal. Nessa altura, já tinha cartão de crédito que apareceu, em Portugal, em 1974/75. Portanto, quando vamos para estes países, contactamos com outra dimensão. Por exemplo, quando vemos os centros de treino do Benfica, do Sporting, do Porto, do Guimarães, do Braga, já os consideramos grandes. Mas grande é na China. Podem não ter jogadores tão bons mas em termos de condições não se compara. Quando chegamos a um centro de formação em que o mais pequeno tem o tamanho e as condições de Alcochete condições de Alcochete, está tudo dito. Quando aumenta o patamar, começamos a ver centros de treino com cinquenta campos relvados, todos juntos. Têm um hospital dentro do centro de treinos, escolas, hotéis, restaurantes, aquilo é quase uma ilha. E também têm habitações para os treinadores, jogadores, zeladores. Imaginem a enormidade disto.

GM  -  E o que falta?

JC  -O que falta são técnicos. Têm tudo, mas não têm técnicos que saibam lidar com a situação. Têm de ser sempre pessoas estrangeiras.

GM  -  E o treinador português está valorizado nesse mercado?

JC  - O treinador português está muito valorizado neste mercado. Neste momento, temos lá o Vítor Pereira. Mas penso que se houvesse mais treinadores portugueses conhecidos com disposição de ir para lá, iriam, de certeza absoluta.

GM  -  Qual é o “senão”?

JC  - O “senão” é que não é um campeonato muito visível e que valorize muito o treinador. Têm uma cultura muito diferente. Mas, por exemplo, temos treinadores em Inglaterra, que já é um futebol visível em todo o mundo. Em Itália, temos, pelo menos, um [Paulo Fonseca] e outros na Grécia, com menos visibilidade. Mas é muito bom que eles deem estes passos porque o treinador português é muito bem considerado fora do nosso país. Depois os resultados aparecem. Veja-se também na Ucrânia com o Luís. As pessoas começam a compreender que os portugueses sabem de futebol e são muito trabalhadores. E depois têm o que muitos não têm, uma enorme capacidade de adaptação. Entendem a cultura onde estão inseridos, como funciona e sabem lidar com isso.

GM  -  Se tivesse de balancear o peso do ensino formal e o peso da experiência prática, qual considera mais importante para a criação e moldagem de um treinador com algum sucesso e capacidade de adaptação?

JC  - Se dermos mais peso a um, vamos cometer muitos erros. Se dermos muito peso ao conhecimento formal, cometemos muitos erros na experiência. Quando damos muita ênfase ao empirismo ou à experiência, cometemos muitos erros. Quem escolher qualquer uma destas vias vai se corrigindo com os erros que vai fazendo, mas vai queimando jogadores pelo caminho. E o que ter experiência? É jogar e depois ser treinador? Aí já é um caso diferente pois esse jogador teve vários treinadores. Houve alguém que o marcou e ele vai repercutir essa experiência. Mas mesmo assim vai cometer muitos erros porque não vai ser ele próprio, vai ser o outro que ele imaginou. Mas, com o tempo ele vai conseguindo atingir o que ambiciona. Vou dar um exemplo muito simples. O Jorge Jesus, que cometeu muitos erros no seu início da carreira? Só anos depois, é que ele começou a ter resultados condizentes com as equipas que treinava. A aprendizagem dele foi através da experiência, a ver muitos jogos. E assim aprende-se. Portanto, ele foi aprendendo com o que via na televisão e com outros treinadores. Depois criou uma metodologia própria. Tanto que ele diz: “É a minha metodologia. Eu não preciso de mais ninguém, é a minha metodologia.”. Ele foi experimentando e melhorando, foi sendo melhor profissional. Mas também foi cometendo muitos erros, ele sabe que os cometeu. Todos nós cometemos erros. Se há coisas certas na nossa vida, são duas: a morte e o erro. Sei que vou errar, todos nós vamos errar até acertarmos. Mas não podemos fazer com que o erro se torne a normalidade. Temos de o ver como um espaço de aprendizagem para melhorar a nossa capacidade profissional.

GM  -  Considera o currículo atual, apropriado para estas novas necessidades do futebol?

JC  - O currículo das universidades ou da Federação?

GM  -  Ambos.

JC  - Os currículos mudaram para estarem de acordo com os que existem na FPF. Claro que não são uma cópia completa, mas estão adaptados às exigências da universidade de acordo com os cursos da Federação. Não foi por acaso que, quando uniram os currículos das faculdades com os da Federação, a universidade mais cotada era a Universidade Lusófona. Porque os currículos não só tinham mais horas, como estavam muito mais aproximados às exigências da UEFA, da FPF, etc. Penso que as outras universidades não tinham isso, mas porque não queriam. Não era por serem melhores ou piores. Até porque mudar os currículos não é fácil porque tem de se ir sempre ao Ministério da Educação e aos reguladores das universidades.

GM  -  Qual deve ser o caminho de um aspirante a treinador? Deve integrar-se numa universidade? Deve também preocupar-se em tirar um curso numa Associação ou Federação? Como é que deve ser o percurso de um treinador?

JC  - Eu dizia sempre aos meus alunos: “Se vocês tiverem de faltar a uma aula porque estão a treinar, faltem. Vão treinar.”. Simples. Eu tive alunos, alguns são conhecidos, que faltavam às aulas porque tinham treino e nunca os prejudiquei. Claro que depois tinham de recuperar a aula, de estudar, etc. Mas dizia-lhes sempre que se tivessem de escolher, o treino está primeiro. Mas também não me enganavam, não tinham sempre treino à hora da aula. Dizia isso porque estar na experiência, no campo, altera muito os paradigmas que são construídos nas universidades. Tenho muita pena que muitos professores da área do desporto nunca tenham estado um relvado ou um ginásio.

GM  -  Qual é a influência que a FUTMagazine, enquanto plataforma, pode ter para os seus membros?

JC  - Como plataforma é fantástico. Se as pessoas ouvirem os diferentes treinadores que vocês já entrevistaram, tenho a certeza de que no fim estarão, não digo preparados, mas mais atentos à sua envolvência e isso muito importante. O que faço no Youtube, nos livros, na televisão, faço porque me pedem inúmeras vezes para explicar isto e aquilo. E eu tento ajudar porque o futebol já me deu muito e eu sinto que tenho de retribuir. Lembro-me, perfeitamente, quando comecei a estudar, haviam dois ou três livros com que podíamos aprender. Agora há uma imensidão de livros e muita informação disponível. Temos é de estar preocupados com os mentirosos e com os plágios.

GM  -  Quem gostava de ver entrevistado pela FUTMagazine?

JC  - Tanta gente. O Klopp, o Mourinho, o Pep Guardiola, etc. porque tenho a certeza que esses vão ser os mais vistos. Eu não vou ser. Infelizmente ou felizmente, não é o valor da palavra que se transmite mas o da pessoa. Eu também sou atraído por isso. Se está ali uma pessoa que não conheço e outra que conheço, vou ver essa entrevista. Mas já tive muitas surpresas. Tenho visto algum trabalho de um treinador turco, com um nome estranho, esquisito, com exercícios fantásticos, muito bem realizados. Ele foi treinador durante muitos anos, mas se, por acaso, não fosse a curiosidade, nunca tinha visto isto. Às vezes, somos surpreendidos por quem menos esperamos.

GM  -  Acho que deve ficar atento porque vai ser surpreendido. Quais são as suas expectativas, neste momento, relativamente à evolução do futebol feminino em Portugal? Acha que vamos conseguir alcançar um patamar que já existe na Europa e até noutros países no mundo?

JC  - Tenho enormes expectativas. Não só em Portugal, como em todo o mundo. Está a ser uma revolução silenciosa. Portugal está a trabalhar bem, talvez não à velocidade que gostaríamos. Penso que é uma revolução fantástica porque vai obrigar os clubes a desmultiplicar-se em várias áreas. Porque também têm de investir na formação de jogadoras. Depois já temos aquela rivalidade entre o Sporting e o Benfica, o Braga também está envolvido, assim como outros clubes. Acho que vai ser uma das maiores áreas de atividade da UEFA nos próximos anos. Em termos de campeonatos e torneios. E isso vai fazer com que mais jovens queiram jogar. Como eu só vejo futebol, não me interesso nada por basquete, andebol, atletismo, ginástica. E na minha opinião, só aqueles que não têm qualidade para jogar futebol é que vão para esses desportos.

GM  -  O mercado do futebol feminino pode ser atrativo?

JC  - Muito atrativo.

GM  -  Para treinadores e profissionais de futebol?

JC  - Talvez mais para as treinadoras. Não me faz confusão nenhuma ver homens a treinar mulheres, como também não me faz confusão ver uma mulher a treinar homens. Quer dizer, isso já faz-me um bocadinho. Mas é porque acho que é mais fácil elas estarem no balneário, por entenderem melhor a forma da mulher. O homem e a mulher são bastante diferentes, quer queiramos ou não. Só para dar um pequeno exemplo. A FPF está a fazer a certificação das entidades formadoras. E costumo ter sempre duas funções, treinador ou Diretor Técnico da formação. Tive dois convites da China para ser Diretor Técnico da formação. Como já disse, a formação na China não tem nada a ver com Portugal, nem em quantidade, nem em recursos. Não aceitei porque não chegámos a acordo. Mas, o que para mim não é suficiente, é bom para outras pessoas. Ou seja, há sempre um nicho de mercado que estamos à espera, principalmente fora do país.

GM  -  Uma última mensagem para os treinadores que têm a intenção de um dia chegar a profissionais?

JC  - O futebol é igual a todas as outras profissões. É preciso ser resiliente, estudar, ter uma mente aberta e muito espirito de sacrifício. Costumava perguntar aos jovens jogadores: “Gostavam de ser como o Cristiano Ronaldo?”. Não havia um que dissesse que não. Mas depois contava-lhes a história do Cristiano Ronaldo, o que ele fez para chegar onde chegou. Metade já dizia que não era capaz de fazer aqueles sacrifícios todos, deixar os amigos, ir para o ginásio, tentar ser o melhor em tudo. Enquanto os amigos iam para o cinema, ele ficava em Alvalade ou Alcochete. Ele dedica toda a sua vida ao futebol e claro, agora tem o que tem. Mas a grande parte dos jovens já acha que não é preciso tanto. Gostamos muito de olhar para os resultados e esquecemo-nos do percurso. O que o futebol tem de grandiosidade é o percurso. Os resultados e os sucessos esquecem-se em 24h mas o percurso vai ficar para sempre. É isto que interessa quando falamos de uma equipa que é campeã. No ano passado, com o Benfica, e há dois anos, com o Porto. Ficou na história. Mas já toda a gente se esqueceu, já estão a pensar noutra coisa. O que ficou foi o percurso. E o percurso é o mais importante da relação entre o treinador e os jogadores. Porque é a união das motivações individuais num compromisso coletivo, ou seja a valorização do clube. E isso ficará para a história, ou não.

GM  -  Professor, muito obrigado pela sua contribuição! Um bom trabalho!

JC  - De nada! Um bom trabalho para vocês também.

 



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