Entrevista Técnica com Óscar Tojo

O treinador não precisa de ser um Super-Homem. Ele não tem de ter super poderes ou poderes sobrenaturais, mas tem de ser um Batman

Óscar Tojo tem dividido a sua carreira entre a educação e o treino, tendo sido formador de cursos UEFA e professor em instituições académicas de renome mundial, como a Faculdade de Motricidade Humana em Portugal. Como Treinador já representou clubes como o UD Leiria, CD Nacional, Santos Laguna e Cruz Azul no México, considerando-se hoje como um Metodólogo do Treino em Futebol. Atualmente, Óscar Tojo desempenha a função de preparador físico no Al-Shabab na Arábia Saudita.

GM – Gonçalo Moura (Entrevistador); OT – Óscar Tojo

Local da entrevista: Évora



GM – Bom dia, professor. Uma vez mais obrigado pela disponibilidade para partilharmos este bocadinho e partilhar a sua experiência. Queria começar por perceber quem é o Óscar Tojo do ponto de vista profissional, por onde já passou, a carreira e o seu percurso até hoje.

OT – Bom dia, Gonçalo e a todos os elementos que fazem parte da FUTMagazine. Queria agradecer o convite e é com enorme prazer que estou aqui para partilhar um pouco do mundo do futebol. Eu sou, neste momento, profissional de futebol, exclusivamente direcionado para o treino do futebol em que estou à espera de uma nova oportunidade para poder exercer a profissão. Faço parte da equipa técnica do Professor Pedro Caixinha, tendo a responsabilidade pela dimensão física do treino como elemento que faz parte da nossa intervenção, tendo a responsabilidade por esta dimensão nos jogadores das nossas equipas. Como o Gonçalo sabe, há pouco tempo tivemos uma experiência no México, no Cruz Azul, e agora estamos numa fase de espera por um novo projeto para poder dar continuidade à carreira de treinador de futebol.

GM – Pessoalmente, que tipo de hobbies tem, visto que agora tem tido mais tempo, e que gosta de fazer? Não só quando está a trabalhar, mas também quando não está.

OT – Tem sido uma experiência interessante porque é a primeira vez que estou a vivenciar este período. Noutros contextos, quando o Mister Pedro estava à procura de novos projetos, eu estava noutras áreas profissionais, ocupado profissionalmente, e agora é a primeira vez que me está a acontecer esta passagem por “estar de férias obrigatoriamente”. Tem sido uma experiência enriquecedora noutras áreas, por exemplo, estou a 100% para a minha família, filhos, esposa, é com eles que passo a maior parte do meu tempo, no desenvolvimento de atividades familiares. Tenho tido também algum tempo para estudar porque a atualização de algumas áreas que são fundamentais na minha área de intervenção são importantes. Tenho tido a oportunidade de poder estudar alguns conteúdos. E também contribuir para a formação de treinadores, tenho aceitado alguns convites para alguns fóruns, seminários e cursos de treinador, que é uma área que gosto pela minha vertente académica, assim vou passando o meu tempo. Em termos de ocupação, gosto muito de ir ao cinema, estar com os meus, viajar, conhecer, e é isso que tenho feito nestas alturas.

GM – Entrando na vertente do treino, fala-se muito das qualidades e das características. Sei que o professor tem uma opinião curiosa relativamente a isto. Que principais qualidades podemos apontar a um treinador para conseguir integrar uma equipa técnica de alto rendimento?

OT – Normalmente, olho muito para os pilares de intervenção de um treinador ou de uma equipa técnica. Esses pilares, no que diz respeito ao seu sucesso, estão relacionados com o feedback dos jogadores, como contribuímos para o seu desenvolvimento individual e a sua expressão coletiva. Também no que diz respeito ao atingir dos resultados, dependente do contexto, acho que é importante o treinador conseguir atingir os objetivos propostos para o clube e para a equipa, acho que é um pilar importante no sucesso da usa intervenção. Por último é a questão que eu gosto de frisar e de controlar, são as lesões de não contacto, lesões musculares. Para que isto possa acontecer, gosto muito de fazer esta analogia, o treinador não tem de ser um Super-Homem, ou seja, não tem de ter poderes sobrenaturais, mas tem de ser um Batman. Porquê um Batman? Porque se olharmos para a sua essência, ele é humano, acho que a componente humana de um treinador é muito importante, não só na sua liderança, mas também nas suas relações quando está numa equipa. A necessidade constante de se atualizar, de treinar, o treinador também treina, ou seja, melhora as suas competências. O facto de ter uma equipa técnica e hoje em dia cada vez mais transversais nas várias áreas de desenvolvimento e também são mais numerosas, o que expressa a importância de outras áreas complementares no desenvolvimento individual e coletivo de uma equipa. O uso da tecnologia, hoje o treinador não se pode dissociar de usar novas tecnologias, plataformas, softwares, novas tendências e, curiosamente, a FUTMagazine tem tido um papel interessante nesta área, com novas tendências e novas oportunidades. E por último, o treinador estar constantemente disponível para poder apoiar a sua equipa, jogadores, clube. A qualquer momento pode ser chamado. É por isto que relaciono a figura do Batman com a intervenção do treinador.

GM – Gostava de perceber como é feita esta gestão em termos de equipa técnica e como são escolhidos os próximos passos? Se o fazem em conjunto, se é uma questão que parte da pessoa que lidera? Como é que trabalham neste momento?

OT – É uma questão pertinente, não é fácil responder. Neste contexto de equipa técnica temos tudo muito claro e partilhado entre nós. Acho que é muito importante o líder da equipa técnica saber essencialmente o que não quer. Porque este momento de tomada de decisão da gestão da carreira, acho que é fundamental. A decisão dos próximos passos é muito importante para o seu futuro e as consequências dessas próprias decisões. Por isso, em primeiro lugar, ficar claro aquilo que não se quer. Estar aberto e ouvir as possibilidades do mercado, tendo em conta o momento e o contexto em que estamos, sabemos que estamos em dezembro e alguns mercados, como no caso da Europa, que é muito mais complicado de entrar do que se fosse em maio ou em abril porque os clubes estão a preparar uma nova época. Mas depois existem mercados emergentes muito interessantes, que para os treinadores têm muito valor, e vão agora começar, como é o caso do Brasil, que está agora a terminar e em janeiro as equipas começam a preparar as suas competições, o mesmo acontece com a MLS, com a China, são mercados emergentes fora da Europa, mas são mercados extremamente atrativos, o próprio México que está a terminar agora o torneio Apertura e vão-se preparar para o Torneio Clausura. As pessoas focam-se muito na Europa, é aqui que nascemos, crescemos, aprendemos e estudámos a modalidade, é aqui que temos as nossas referências das competições mais importantes, mas para quem quer dar o passo e começar a contactar com outro tipo de realidades, como por exemplo o continente americano, começa a perceber que existe muito mais futebol para além da Europa, clubes com excelentes organizações, competições muito atrativas e competitivas. A partir do momento em que nos abrimos para ser cidadãos do mundo, é fundamental perceber o que não se quer e a partir do que não se quer, estamos abertos a possibilidades e isso é discutido entre a equipa técnica, mas eu defendo muito que será sempre a decisão do treinador principal que deverá prevalecer e que, como elementos da equipa técnica, temos de respeitar.

GM – Que estratégias têm procurado para se integrar no mercado? O professor falou muito bem sobre os mercados emergentes. Têm alguma estratégia em termos de contactos com empresários ou contactos mais diretos? Isto é algo que faz sentido expor.

OT – Sim. Logicamente que é muito à base do networking e da representação do Pedro, que tem as suas pessoas de confiança, que fazem o seu papel de contacto, mesmo de contacto continuado, mesmo estando noutros contextos, esta continuidade de contacto é fundamental. Tem havido esta parte da pessoa que está responsável pela sua representação, estabelecer os contactos e ver as oportunidades que possam aparecer. O que nos tem acontecido e é muito interessante porque no contexto nacional não encontro muito isto e já nos aconteceu neste período em que estamos sem clube, é o Pedro ser chamado para uma entrevista. Ao Pedro já aconteceu ter duas oportunidades, ser chamado pelo responsável ou dono do clube, em que ele prepara a entrevista e nessa entrevista apresenta um pouco da sua metodologia de trabalho, desde funções da equipa técnica, modelos de jogo, aspetos relacionados com a liderança, conhecimento da competição e do clube que ele tem na altura, tudo isto é partilhado, desde os jogadores que podem sair, que fazem parte ou que podem vir a ser contratados, toda esta visão é falada numa reunião, logicamente que o clube tem esta estratégia com outros treinadores e a partir do momento em que tem alguns alvos, têm de tomar a decisão, que infelizmente não aconteceu para o nosso lado, mas sentimos que deixamos a nossa semente, um contacto, somos totalmente abertos sobre a nossa metodologia e o que para nós é claro na parte da intervenção e o clube depois decide se esta equipa técnica vai de encontro ao que querem naquele momento ou se no futuro poderá acontecer.

GM – O professor acha que essa marcação de entrevista é tendência ou tem acontecido mais nesse contexto do que é o habitual no mundo do futebol?

OT – O que sinto é que os treinadores têm de estar preparados para isto. Não sei se vai acontecer noutros países, ou concretamente em Portugal, se os clubes, os dirigentes estão mais sensíveis a este tipo de situação ou vão mais pelo contacto, pela influência ou conhecimento pessoal, não sei, mas a verdade é que está a ser mais regular em alguns países, alguns clubes e que parece ser comum acontecer. Falo muito pela partilha da própria experiência do Pedro, daquilo que eu sei, por exemplo sei que no Rangers foi através de entrevista, no Santos Laguna foi através de entrevista, parece que começa a ser algo comum em vários contextos e é uma mais-valia.

GM – Há aqui uma noção de meritocracia, há seleção?

OT – Exatamente! E nós estamos a olhar muito para o treinador que o clube escolhe, mas também há outro lado, nesta entrevista existe oportunidade de o treinador perceber se aquele clube, em termos de projeto, encaixa no seu perfil, liderança, metodologia, forma de estar…

GM – Objetivos.

OT – Exato, vida social do clube, adeptos, ou seja, existem estas mais-valias para o clube e para o treinador para que possam tomar uma decisão de forma consciente. Acho que se a decisão for tomada de forma consciente de ambas as partes, tem tudo para dar certo.

Prévia da entrevista com Oscar Tojo. Veja a entrevista completa no FUTMagazine

 

 

GM – Do ponto de vista pessoal, já sentiu algum tipo de ansiedade por não ser o responsável pela escolha? Acha que é algo que os treinadores quando estão nesta posição podem sentir eventualmente, ou é um mito, algo que pode ser facilmente ultrapassado com confiança?

OT – Não seria correto se vos dissesse que nestas duas entrevistas que aconteceram, o projeto era muito atrativo, ou seja, não só em termos pessoais, mas o futuro da equipa técnica, o futuro do Pedro, que é uma pessoa que acima de tudo quero bem como amigo, acho que era um passo em frente no percurso da sua carreira. Quando é assim, é natural que sintas alguma ansiedade por perceber e querer que as coisas corram da melhor forma, mas são coisas que nós não conseguimos controlar. Depois entra o foco nas coisas que podes controlar e influenciar e nas coisas que não podes controlar e não dependem de ti, mas se houver esse treino, as coisas são minimizadas.

GM – Como é que, nesta fase de transição, pode ser aproveitado o tempo livre? Fazem-no individualmente, o professor está preocupado com a sua área de intervenção e faz esse estudo de forma individual, ou há por exemplo algum tipo de gestão coletiva em que se juntam algumas vezes e fazem algum tipo de avaliação? Como é que é feito?

OT – De forma pensada e como equipa técnica, temos aceitado alguns convites sobre a partilha do nosso trabalho, por isso já estivemos em duas ou três ações em conjunto em que houve esta oportunidade, isso permite-nos não só partilhar o nosso trabalho, mas também estar juntos e isso é importante. Moramos todos muito próximos, uns elementos perto de Lisboa, um elemento em Castelo Branco, eu estou em Évora, permite-nos estar juntos em alguns momentos para, por exemplo, ir observar alguns jogos e ter este contacto com o futebol português, que não tivemos oportunidade nos últimos anos porque o Pedro esteve, praticamente, sempre por fora. Para além das plataformas e redes em que estamos praticamente todos os dias em comunicação e temos oportunidade de partilhar ideias, visões, experiências, mas fisicamente, quando estamos juntos tem sido neste contexto.

GM – Acha que essa produtividade depende um pouco da relação pessoal e profissional que já têm, ou acha que existem equipas técnicas formadas há menos tempo ou com processos menos consolidados em que há essa necessidade de se juntarem mais vezes e trabalhar mais durante a fase de transição?

OT – Acho que são momentos importantes e o líder da equipa técnica deve ter esta sensibilidade. O Pedro tem esta sensibilidade de nos juntarmos, não só pelo futuro da nossa equipa técnica, mas também pelos laços pessoais que temos.

GM – Considera que é importante fazer algum trabalho para se preparar caso o processo não lhe interesse ou que não possa acompanhar a equipa por algum motivo? É tida esta preocupação com a possibilidade de não poder acompanhar? Como me posso preparar para ficar de fora ou eventualmente dar um passo noutra direção?

OT – Sem dúvida. Acho que esta abertura e humildade que temos que as coisas estão constantemente a evoluir, que o mercado está muito competitivo, que existe muita oferta e com muitas pessoas de qualidade em várias áreas, leva-nos também a ter, independentemente da nossa idade, a preocupação de colocar em causa as nossas verdades e perceber as nossas limitações. A título pessoal posso partilhar que desde que saí do México, entrei num curso de inglês porque sinto que essa é uma das minhas lacunas e tenho de me preparar melhor, não sabendo o dia de amanhã, tenho de estar preparado para as oportunidades que possam aparecer. Para além do estudo que eu faço em algumas áreas específicas da minha intervenção, tendo em conta as novas tendências, podermo-nos formar noutras áreas é fundamental, e ter humildade de perceber quais são as nossas lacunas.

GM – Quais os momentos chave e decisões que o levaram a ser hoje profissional de futebol?

OT – Acredito que seja progressivo. Quando tinha dezassete, dezoito anos, a única definição clara que tinha sobre mim era que queria ser professor de educação física e que tinha paixão pelo futebol. Há medida que vamos entrando em algumas áreas, vamos tendo a influência de várias pessoas, vamos escolhendo alguns caminhos, e acima de tudo vamos vivenciando os nossos conhecimentos e se temos competências para certas coisas, mas vamos definindo o nosso caminho, acho que foi algo gradual. Dizer que quando tinha seis anos queria ser treinador ou profissional de futebol é mentira, mas dizer que quando acabei o curso aos vinte e dois, tive a primeira oportunidade de treinar e ao terminar a primeira época dizer: “é isto que quero fazer”, isso aconteceu. É uma questão de oportunidades e estar preparado para elas.

GM – Como mudou a sua vida desde que se tornou profissional?

OT – A relação que nós temos com os amigos, a cidade natal, onde tu estás, onde tu cresceste, essas relações perdem-se muito. Aqui vais aos teus verdadeiros amigos ou que conheceste desde muito cedo porque todas as outras pessoas com que vais mantendo contacto, essas relações perdem-se naturalmente porque não estás presente. Em termos familiares, vivenciei os dois contextos, um em que estive sozinho e aí perdes muito na influência da educação dos teus filhos porque uma coisa é eles estarem 24h a ser educados pela tua esposa e não terem a tua influência enquanto pai, a relação que tens com a tua esposa enquanto casal e família, ou seja, vivenciei essa parte pela negativa, de estar longe deles, que é algo muito complicado e difícil, mas tens de estar preparado para ela e, curiosamente, nos cursos de treinador e na faculdade não nos preparam para essa dimensão, o relacionamento com a parte familiar, que capacidade temos para estar longe deles. Isto é algo importante porque, por exemplo, no projeto do Santos Laguna, passado algum tempo, abdiquei de continuar na equipa técnica para voltar para os meus filhos e família, para Évora novamente. E vivenciei no último ano outra dimensão, que é ir para um país, novamente para o México, mas para outra cidade, com a família atrás e curiosamente os ganhos que tínhamos eram muito maiores, ou seja, enquanto estava na faculdade, pelo volume de trabalho estava poucas vezes em casa, mas estava com eles, mas com pouco tempo com eles, quando decidimos ir para o México reverteu-se a situação, foi quando passei mais tempo com os meus filhos e a minha esposa, eramos completamente desconhecidos na vivência naquele país, principalmente para eles e para a minha esposa e foi uma descoberta nova todos os dias, todos os dias havia experiências novas, viagens, palavras novas, amigos novos e isto foi muito enriquecedor, foi muito bom.

GM – Como é que a família se adapta a essa necessidade de viajar, de conhecer sítios novos? Inicialmente claro que é um gosto, mas depois pode haver a falta de noção de casa.

OT – Sim, acho que a família se adaptar tem de ter uma parte de educação. Tendencialmente ficamos na nossa zona de conforto e ninguém foge desta tendência. É verdade que a incerteza profissional é muita, que depois nos permite tomar a decisão de ir ou não ir, isso também influencia. Mas depois quando voltei foi no sentido de prepará-los para que possa acontecer novamente e estarmos abertos e preparados para que aconteça. Os meus filhos e a minha esposa são pessoas fundamentais a perceber o contexto e a escolha que o pai fez para a vida profissional e estarem preparados para me acompanhar porque só faz sentido se a família estiver junta, na minha opinião é importante.

GM – Já esteve em muitas partes do mundo, porquê este local para a entrevista? Aproveitando para apresentar onde estamos e porquê este local.

OT – Estamos nas instalações do Lusitano Ginásio Clube, que é um clube histórico do futebol nacional, já esteve catorze anos na divisão principal e a mim diz-me muito porque é o clube do qual o meu pai era adepto, é o clube que comecei a ver e a gostar de futebol e é o clube em que fui praticante durante muitos anos. É um clube muito especial para mim. Curiosamente foi aqui o primeiro clube em que fui treinador de uma equipa sénior. Ao lado existe o Juventude Sport Clube, que também tenho alguma relação porque foi o primeiro clube que me deu a oportunidade de ser treinador, na altura dos benjamins e, curiosamente, o meu filho, que neste momento tem onze anos, começou aqui a jogar desde os quatro anos e está a fazer aqui o seu percurso desportivo. Tanto o Lusitano como o Juventude são clubes muito especiais para mim e que me deram oportunidade de poder trabalhar e desenvolver esta paixão que tenho pelo futebol.

GM – Se não fosse em Évora, neste espaço, em que outro local poderíamos estar?

OT – Se fosse em Évora, noutro local, seria o Juventude que facilmente se enquadrava. Em Évora também, trabalhei na Associação de Futebol de Évora durante muitos anos, que também me diz muito, trabalhei na faculdade, o espaço do Jamor é muito especial porque durante três, quatro anos tive a oportunidade de desenvolver aulas com os alunos sobre o ensino do futebol e é um espaço histórico em que muitas pessoas já passaram por ali, em Portugal seria um destes locais.

GM – Voltando ao treino, de acordo com a responsabilidade que tem no processo e já enunciou algumas, como é que é organizado o microciclo quando temos um jogo, por exemplo, ao fim-de-semana ou durante esse período, como é que organiza o planeamento, o controlo e a própria avaliação aos resultados?

OT – Acho que como nós olhamos para a nossa preparação durante a semana é muito jogo a jogo. Cada vez mais acredito neste tipo de metodologia, relacionado também com a densidade competitiva que é cada vez mais elevada, com a dimensão tático-estratégica que os jogos ganham, com influência do seu contexto que cada vez é mais fundamental e predominante. E tendo com base nisto, o treinador e a equipa técnica preparam a semana tendo em conta os dias de preparação que têm e as oportunidades que têm para trabalhar com a equipa e os jogadores, esta forma de trabalhar está relacionada com aquilo que são as ideias para o desenvolvimento do seu jogo, para o que foi o jogo anterior e o que podemos tirar para melhorar o nosso jogo, depois as características do próximo adversário, daí a dimensão tático-estratégica e de jogo-treino, treino para o jogo, é muito esta relação.

GM – E a intervenção do professor dentro do contexto competitivo, que tipo de função tem no dia-a-dia? Como é que é feita a sua rotina de trabalho durante a semana competitiva?

OT – Como disse há pouco, a minha responsabilidade é mais a dimensão física, o rendimento, tendo em conta esta densidade competitiva elevada, os jogadores passam muito tempo em recuperação, principalmente os mais utilizados porque existe pouco tempo e pouco espaço para treinar quando temos dois, três jogos por semana e torna-se fundamental a nossa intervenção, esta é a minha área de intervenção, a parte da recuperação. Outra parte é prepará-los para a sessão de treino, o antes e o pós-treino, o trabalho preventivo, de preparação, individual, é uma das áreas em que tenho responsabilidade e são áreas fundamentais neste pilar que falei, da prevenção de lesões musculares. E outra área em que trabalho muito na equipa técnica do Pedro é o controlo de treino. O desenvolvimento dos conteúdos de treino, a carga de treino, o que individualmente acontece com cada jogador e como é que coletivamente isso se expressa para que os jogadores possam estar totalmente recuperados e chegar ao jogo totalmente disponíveis para a exigência do treinador. São áreas que trabalho e controlo para passar feedback à equipa técnica e no dia-a-dia tomar as melhores decisões.

GM – Que ferramentas são as que nos permitem fazer o controlo do treino e do jogo praticamente ao minuto e ao segundo?

OT – Hoje em dia, com o avanço tecnológico e sendo estas áreas cada vez mais importantes, existem ferramentas que não podemos dispensar para ter a melhor informação possível. A utilização de GPS, as escalas de RPE, outro tipo de instrumentos para a avaliação do jogador, como por exemplo, a avaliação de CK ou termografia são alguns instrumentos que utilizamos que nos fornece informações muito sintetizadas, que também é importante de referir, ter a capacidade de sintetizar e escolher as ferramentas próprias porque escolher as ferramentas hoje é um desafio, tendo em conta a oferta que temos na área da tecnologia para poder passar de forma filtrada ao treinador as melhores informações para que ele possa tomar as melhores decisões.

GM – A utilização dessas ferramentas é feita em treino e também em jogo? Como é que fazem, por exemplo na parte de observação, o contacto entre o treinador e alguém que tenham na bancada, comoé esta gestão?

OT – Na área da dimensão física, ao vivo não o fazemos. Utilizamos o GPS para controlo do treino e da carga de treino e também em competição, que nos permite retirar algumas informações individuais e coletivas, fazemo-lo sempre, jogo e competição. No que diz respeito à dimensão física, não fazemos ao vivo, não sentimos a necessidade de ter essa informação ao vivo porque não temos essa prioridade em contexto competitivo. Existe sim outro tipo de informação partilhada entre o banco e a equipa técnica tem essa preocupação da análise de jogo, da tomada de decisão, da forma como a equipa se está a comportar e os seus comportamentos técnico-táticos individual e coletivamente no confronto sistema com a outra equipa, existe essa preocupação constante com a equipa técnica que está no banco e com os elementos que estão em cima a observar, que têm outro tipo de visão e informação.

GM – O professor acha que ainda há trabalho a fazer relativamente à noção que temos da importância, seja no aquecimento, antes do jogo começar, seja no intervalo, no período em que muitos treinadores utilizam para fazer a ativação, seja também na própria ativação dos jogadores antes de entrar no jogo durante o momento, acha que ainda há alguma coisa que pode ser feita e como podemos tirar esta informação? Até nas próprias substituições, a influência que a substituição teve no jogo?

OT – Falou em três aspetos que contemplamos e olhamos de uma forma muito cuidada e com muita importância. A maneira como preparamos o aquecimento é muito importante, os cuidados que temos são de tentar rentabilizar o tempo e prepará-los para o jogo, acho que o melhor aquecimento é aquele que demora menos tempo e os jogadores se preparam melhor nas dimensões física, técnica, tática e até em termos estratégicos perceber o que pode dar esse benefício. Sobre a reativação a seguir ao intervalo, existem muitos estudos nesta área que nos permitem dizer que a reativação é fundamental porque aqueles dez, quinze minutos em que os jogadores estão parados, em alguns contextos, diminui muito a sua resposta nos primeiros cinco, dez minutos da segunda parte, por isso se houver este cuidado de a equipa técnica fazer a reativação, é importante e nós fazemo-la, ou seja, temos dois minutos em que temos essa preocupação e passamos esta mensagem para o jogador. E depois a preparação dos jogadores para entrar em jogo, estão no banco e podem vir a ser utilizados, também temos esta preocupação, neste caso sou eu que estou com eles, pela minha formação porque para além da preocupação com a dimensão física, sou treinador UEFA PRO e gosto muito da área técnico-tática também, na parte do aquecimento e conhecendo bem as ideias do Pedro, sabemos bem que jogadores podem entrar, como podem entrar, que tipo de comportamento podem dar para o que a equipa precisa no momento e prepará-los não só fisicamente, mas também mentalmente é importante.

GM – Que conselhos pode dar a treinadores e membros que não estão em contextos tão desenvolvidos tecnologicamente, que tipo de ferramentas e possibilidades podem ter em contextos mais baixos?

OT – Acho que os treinadores, independentemente do seu contexto, têm de ter a sensibilidade para o controlo, avaliação do treino e competição. Lembro-me que quando comecei nos benjamins em 2002/2003 fazia controlo de treino, isso era controlo de conteúdos, de formas, ou seja, era mais de qualidade e não tanto em termos de quantidade da dimensão física porque para aquele contexto não se justificava, avaliava muito a minha intervenção, fazia sempre um relatório depois do treino, como podia melhorar naquele exercício, tinha uma análise crítica sobre a minha intervenção e depois controlava muito o comportamento dos meus jogadores individualmente e coletivamente em jogo. Ou seja, adaptar o controlo do treino e da competição ao contexto em que estamos. Se amanhã estivesse a trabalhar num contexto distrital, tentava focar-me em aspetos que para mim eram importantes, perceber a sensibilidade do jogador para o que foi exigido no treino, ter este feedback que a RPE nos pode dar, o volume de treino é importante, controlar a dimensão do espaço, número e tempo do exercício e como é que ao longo da semana podemos alterar as variáveis do exercício para não estar a insistir sobre as mesmas situações, ou seja, tentar encontrar algumas formas de controlo que nos permite qualificar o nosso trabalho.

GM – Até onde é que vai essa capacidade de prevenção de uma equipa técnica em relação às lesões musculares? Creio que no futebol profissional é cada vez mais uma preocupação, mas continuamos a ver em alguns níveis elevados, jogadores inativos e sem capacidade de contribuir por causa dessas mesmas lesões. Como é que o professor vê esta dicotomia de lesões musculares?

OT – Acho que temos muita influência no controlo de lesões musculares. A metodologia escolhida pela equipa técnica, a maneira como é implementada, o controlo que temos, o trabalho preventivo individual, as avaliações e a definição do trabalho que fazemos diariamente e semanalmente, antes e após o treino, são muito importantes. Acho que temos alguma influência na não ocorrência ou na maior ocorrência dessas lesões. É verdade que nestas áreas não se controla tudo, a densidade competitiva é muito elevada, as exigências são muito elevadas também, a própria lesão pode ser influenciada por outros contextos que não sejam só a intervenção do treinador ou a metodologia da equipa técnica, mas acho que é uma área fundamental porque existem muitos estudos que relacionam a performance da equipa e o número de lesões que existe. As coisas estão relacionadas, ou seja, melhor performance, menor número de lesões, menor performance da equipa em termos classificativos, maior o número de lesões, existe uma relação muito próxima. Temos de olhar para elas como algo muito importante na nossa metodologia e controlar.

GM – Consegue identificar alguma estratégia que utilizam enquanto equipa técnica?

OT – Sim, quando entramos num período pré-competitivo gostamos muito das avaliações médicas preventivas e físicas, temos muito cuidado com a avaliação individual do jogador e perceber não só onde é que o jogador tem de melhorar em termos de aptidão para a prática, mas também no potenciar de algumas capacidades, isso fazemos de forma regular, temos esse cuidado. E depois, não só individualmente, mas também coletivamente, preparar a equipa para a intervenção do treinador no treino. Preparar os jogadores para a exigência da parte principal do treino e as características dos exercícios nesta relação de espaço, número e tempo, preparando-os antes nos seus grupos musculares para que possam estar aptos a ter esta resposta em treino, acho que é fundamental. Por isso é importante a definição de um plano preventivo sendo específica a metodologia do treinador, ou seja, não chegar a um clube ou a uma equipa técnica e definir o plano preventivo sem conhecer o que o treinador quer fazer. É importante conhecer a metodologia do treinador para preparar os jogadores para essa resposta.

GM – E nessa relação entre a vertente coletiva e individual, como lindam com as diferentes características dos jogadores e com a diferente capacidade de desenvolvimento e aprendizagem de cada um deles, há essa preocupação?

OT – Há essa preocupação. Acreditamos que a dimensão individual está a ganhar cada vez mais espaço na preparação coletiva e é cada vez mais importante no que o jogador pode dar individualmente à equipa. Fazendo uma analogia, olhamos para um jogador como se fosse uma célula do organismo, se esta célula for bem alimentada, cuidada, se tiver saúde, o que sentimos é que a equipa também se expressa com melhor qualidade. Por isso olhamos muito para a dimensão individual fundamental e o que pode ser o desenvolvimento dos fatores de rendimento, seja ele físico como já falei há pouco de potenciar capacidades ou de trabalho preventivo para que o jogador não se lesione, seja num aspeto técnico-tático, naquilo que, posicionalmente, o jogador deve melhorar para acrescentar à equipa, até em termos emocionais porque na equipa técnica contemplamos a presença de um psicólogo ou um coach, que nos permite desenvolver algum trabalho individual e coletivamente com os jogadores para que possam, nestes fatores de rendimento, expressar a sua melhor versão. Por isso olhamos muito para a preparação de um carro de Fórmula 1, ou seja, esta preparação tem de ir ao detalhe para que o carro, neste caso o jogador, possa estar na sua melhor qualidade e é por isso que comparamos a preparação de um carro de Fórmula 1 à preparação de um jogador.

GM – E até onde podemos ir com esse jogador, em termos de potencial, qual é o intervalo daquilo que o jogador está a mostrar neste momento para o que pode ser o seu potencial?

OT – Acho que não existe limite, ou seja, vamos ao Youtube e metemos, por exemplo, uma ginasta a fazer o que fazia há dez anos e hoje com as aptidões que as próprias ginastas apresentam no seu rendimento, é do dia para a noite. Acho que o jogador ainda nos pode dar muito no desenvolvimento das suas competências porque sinto que há um espaço maior para treinar, acho que é possível treinar um pouco mais e se nós conseguirmos quebrar alguns mitos sobre a preparação do jogador de futebol e até em comparação com outras modalidades individuais, o tempo que se prepara para treinar, a diferença é enorme e acho que existe um espaço que podemos explorar. Mas é preciso vir o treinador que tenha essa coragem, que abrace o desafio e vá por aí.

GM – A pergunta era essa. Como podemos motivar o jogador, também depende um pouco da própria característica do jogador e da sua noção do que está a fazer, como podemos motivá-lo e mostrar que em determinado aspeto ainda pode melhorar?

OT – O que sinto é que, principalmente, os jogadores novos já têm essa sensibilidade. Pela formação desportiva que vão tendo, falando de clubes de topo em que os jogadores a partir dos seus doze, treze, catorze anos começam a ter uma exigência de preparação muito elevada. Começam também a ficar sensibilizados para a importância de se cuidarem, então olham para este tipo de preparação individual com maior importância do que anteriormente, para além de importância, a necessidade, por vezes eles próprios procuram porque sentem falta de algo, precisam de algo no seu jogo, como podem melhorar certo aspeto, para além de recetivos à nossa análise crítica de especialistas da modalidade, o que sinto é que os jogadores nos procuram com a necessidade de mudar algo na sua performance e a tendência vai nesse sentido. Isto leva-nos também para o nosso desafio como treinador, estarmos preparados para a exigência do jogador, que nada se compara ao que era há uns anos e acho que neste momento os jogadores são mais conhecedores, têm mais informação e com isso vão sendo mais exigentes e como treinadores temos de ter a capacidade de nos adaptar.

GM – Olhamos para o jogador cada vez mais como atleta ou continua a ser o jogador de futebol e não o atleta de futebol?

OT – Na intervenção que temos, por acaso gosto muito da preocupação que o Pedro tem na sua intervenção e com a equipa técnica, que é a dimensão do homem, do atleta e do futebolista. Acho que quando estamos a intervir é sempre nestas três áreas. Primeiro, fundamentalmente, na intervenção do homem, os princípios que passamos, que é fundamental, não tanto num contexto profissional, mas também, essencialmente quando estamos a falar na formação, dificilmente eles vão chegar ao nível profissional, então a intervenção na área da formação cívica é fundamental. A intervenção como atleta na preparação, como disse, para que possam expressar as suas capacidades no melhor nível. Depois, logicamente, nesta sequência vem a sua expressão como futebolista, a modalidade em causa.

GM – O professor falou que esteve alguns anos em associações e teve um papel importante a nível académico, então nós gostamos sempre de fazer esta pergunta. Qual a influência do ensino formal e do ensino informal, a prática no campo, a experiência para a formação de um treinador de futebol?

OT – Acho que a melhor resposta que posso dar em relação a este tema, repetindo as palavras do professor Jesualdo Ferreira, que eu subscrevo totalmente, dizia: “o treinador, neste momento, melhor preparado é o que foi um jogador de topo e ao mesmo tempo um aluno de topo”, isto corresponde muito ao que penso, a área empírica e a área científica têm de andar de mãos dadas constantemente porque as tendências e a evolução do futebol tem sido notória, o jogo de hoje em dia não tem nada a ver com o jogo de há dez anos, a forma como as equipas se preparam não tem nada a ver com o que acontecia há uns anos. Há pouco falámos da preparação e do conhecimento do jogador e daquilo que é a exigência para o treinador, essa é a parte mais teórica em que nós, como professores, temos essa responsabilidade, não só de acompanhar as tendências, mas também de passar essas informações e preparar os treinadores nesse sentido, mas depois tem a parte mais empírica, ou seja, o dia-a-dia, as relações, o contexto, as vivências de cada clube, cada campeonato, a sensibilidade e intuição do treinador são coisas muito importantes e para ter alguma sensibilidade e intuição temos de viver o processo, estar no contexto. E neste sentido, um jogador que possa vivenciar isto ao longo do seu percurso profissional, vai bebendo muito desta informação. Por outro lado, a parte do conhecimento é também muito importante, portanto juntava as duas, 50%/50%.

GM – Considera o currículo atual, seja nos cursos federativos, na oferta académica que existe, especificamente em Portugal, considera que esta oferta está adaptada a essas necessidades e novas tendências que vão surgindo?

OT – Eu acho que estamos no caminho correto e que permite ao treinador estar devidamente preparado para a sua intervenção. Mas depois que provas temos disto? As provas estão aí, hoje parece-me claro, em todo o mundo, que o treinador português é um dos melhores produtos de exportação que temos no país porque quando chega a um clube, na sua grande maioria, consegue ter resultados positivos e essa é a melhor avaliação que podemos ter, é as pessoas que recebem esta formação irem para o contexto prático, porque aí é que se vê quem é que sabe ou não, e quando lá estão poderem ter êxito nos objetivos da equipa e do clube.

GM – Qual é a influência que a FUTMagazine, pelas suas iniciativas e atividades, pode ter para os membros que nos cheguem nesta própria formação de treinadores?

OT – A maneira como as coisas estão a ser montadas, a sensibilidade das pessoas e a equipa que está por trás, acho que estão a entrar por caminhos muito desafiantes e isso é extremamente positivo, ou seja, não se escreve muito em Portugal, curiosamente, apesar de termos os melhores treinadores, não se escreve muito sobre o treino, parece que as pessoas têm algum receio de escrever sobre o trabalho que desenvolvem. Acho que a FUTMagazine, pelas ferramentas que tem, pela visão que tem, pelas novas oportunidades que podem criar ao treinador e às pessoas que se vão associar, creio que pode ter um papel importante na partilha do trabalho, do conhecimento, das experiências. Acho que é muito importante e, pelo que conheço, dou-vos os parabéns e a ti em particular Gonçalo, pela visão que têm para a revista e como ela pode ser fundamental nesta associação aos cursos, às faculdades para podermos ter melhores profissionais e mais capazes de desenvolver nos clubes um melhor trabalho.

GM – Muito obrigado pelo feedback. Quase a finalizar, tendo em conta a experiência internacional que teve e os vários contextos em que já trabalhou, qual é, como é que vê o desenvolvimento do futebol feminino em Portugal face a esses contextos? Sabemos que está a haver uma grande aposta por parte da Federação e creio que isso é notório, mas como é que estamos em relação a outros países do mundo?

OT – Acho que falar de futebol feminino hoje, finais de 2019, nada tem a ver com o que era em 2008, 2006, 2010, na altura eu era responsável técnico de uma associação de futebol, Associação de Futebol de Évora, em que nós, por via da Federação, tínhamos de começar a dar esses passos para o desenvolvimento da modalidade e nada se compara. É impressionante a qualidade que a Federação tem tido nesta área, a aposta, o trabalho de qualidade que tem desenvolvido, o número de praticantes de futebol feminino em Portugal triplicou ou quadruplicou em relação aos últimos anos e acho que em Portugal é uma das áreas que ainda pode desenvolver mais, não só em termos do aparecimento de novos atletas, como também a qualificação do treino e o aparecimento de novos profissionais. As próprias oportunidades que vão aparecer para o futebol feminino e as condições em que essas oportunidades são dadas para novos colegas, acho que em Portugal é uma área que pode crescer muito e vai crescer. Curiosamente tem vindo a acontecer noutros países, por exemplo, nesta última experiência no México, um dos projetos da liga era o de todos os clubes que estavam a participar no nosso campeonato, tinham de ter obrigatoriamente uma equipa feminina, o campeonato feminino era disputado com as mesmas equipas do campeonato principal. Isso era uma medida institucional que os clubes tinham de cumprir e cumpriram. O desenvolvimento do futebol feminino no México tem vindo a ser incrível, com resultados que se refletem nas suas seleções e com o aparecimento de novas atletas em termos individuais muito capazes porque o talento não escolhe idade, género ou o contexto em que a pessoa está, por isso tem tudo para crescer.

GM – Cerca de quanto tempo podemos esperar até que estas oportunidades comecem a abrir para novos profissionais dentro de estruturas técnicas de futebol feminino?

OT – Acho que já começam a abrir. É verdade que não são tantas quanto nós queremos, mas acho que neste momento as oportunidades para o futebol feminino já começam a aparecer com condições muito interessantes. Volto a frisar, penso que os clubes, cada vez mais, estão a ter esta sensibilidade porque é um ramo em que os próprios clubes podem crescer muito, não só em jogadores, mas também em adeptos, afiliação, acho que tem muito potencial, logo tem tudo para que o que envolve o próprio produto possa ser desenvolvido, não só as condições que os clubes oferecem às atletas, as oportunidade de trabalho para equipas técnicas ou novos treinadores, o poder de escolha que o treinador tem de poder seguir esse ramo e ser esse o seu percurso, como por exemplo, o Francisco Neto, que é um caso particular nesse aspeto, que escolheu esse ramo e está a fazer o seu percurso nessa área, acho que é algo muito viável. Juntando a isto, há o perfil do treinador português, os êxitos que o treinador português tem no futebol masculino e o que são os clubes do futebol feminino noutros países em que têm estruturas muito desenvolvidas e de uma forma muito profissional, acho que eventualmente vai acontecer que treinadores portugueses vão para outros países para trabalhar no feminino, acredito que seja algo a acontecer nos próximos anos.

GM – Óscar, onde se vê daqui a cinco anos?

OT – Gostava de me ver no futebol profissional e acompanhado pela minha família, acima de tudo isso, ou seja, tenho alguns sonhos para cumprir e é normal em todos nós. Quem não gostaria de trabalhar num contexto de Liga dos Campeões? Num contexto de fase final de uma Seleção Nacional? Nos campeonatos que falei há pouco, de topo, como na MLS, na China, no Brasil? Quem não gostaria de trabalhar neste tipo de contextos? Nós alimentamos muito este sonho, estar junto dos nossos contextos e nas equipas de topo, mas acima de tudo, estar com aqueles que são mais próximos e fazer aquilo que mais gosto e tenho paixão, que é o futebol.

GM – Uma última mensagem para as pessoas que nos cheguem e vão ver esta entrevista, que têm, assim como nós, esta aspiração de chegar ao futebol profissional e fazer disso carreira.

OT – A mensagem é o que partilho quando tenho oportunidade de estar com outros colegas, ou seja, sermos resilientes, sérios no trabalho, coerentes, ter princípios muito claros. Costumo dizer que no futebol tudo se sabe. Acho que é importante manter as nossas linhas de princípio porque a partir do momento em que as começamos a baixar, começa a ser muito difícil voltar a ter esses princípios. Acho que há princípios fundamentais, ser responsável, ser leal, ser competente e procurar melhorar as nossas competências. A juntar a tudo isto, ter paixão pela modalidade e estar preparado para a oportunidade. Acho que as oportunidades vão sempre aparecer para quem é competente, a diferença é, depois de ela aparecer, se estamos preparados e devidamente competentes para dar resposta à exigência dessa oportunidade, isto leva-nos a ter um trabalho de fundo, não só de preparação a vários níveis e a vários contextos, mas também estar preparados para sair da nossa zona de conforto, ir para zonas em que podemos não estar tão à vontade, mas termos este foco de dia após dia sermos um pouco melhor.

GM – Óscar, muito obrigado, foi um prazer! Esperamos vê-lo num contexto profissional em breve!

OT – De nada, Gonçalo! Obrigado pela oportunidade!

 



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