Entrevista a Rui Malheiro

Entrevista a Rui Malheiro

Um dos dos mais conceituados analistas do futebol na actualidade, com percurso relevante em clubes Portugueses, fala-nos sobre a paixão de uma vida... o futebol! Dá-nos a conhecer o seu percurso e a forma como olha para o jogo de forma completamente aberta.

Quem é o Rui Malheiro fora do Futebol?

É muito difícil desligar-me por completo, até porque quando saio é normal falarem comigo sobre futebol, mas procuro fazer por isso, principalmente dentro de casa, quando não estou a trabalhar. Não só porque adoro estar com as pessoas que me são mais próximas, como também porque sei que são elas quem mais “sofre” com as minhas ausências, por não ter um trabalho “normal” com os horários fixos e folgas aos fim-de-semana, e isso leva-me a procurar fazer a maior ginástica possível para ter tempo livre. Gosto de jantar com amigos, em casa ou fora, e de conversar num bar com música alternativa como pano de fundo, da mesma forma que gosto do ar puro dos pequenos e grandes jardins, de passear por locais virados para o rio ou para o mar, e de rotinas: comprar os jornais, tomar o pequeno-almoço, ou almoçar nos sítios de sempre. Não gosto de levar o telemóvel comigo, para não me sentir preso às notícias ao segundo e às redes sociais, da mesma forma que não gosto de centros comerciais e de discotecas. Adoro música: de ouvir os discos que gosto  – o que, felizmente, é conciliável com grande parte do meu trabalho – em repeat, de descobrir novas bandas, e de partilhar canções. Também gosto de ir a concertos, de tocar e fazer canções, o que se tornou mais complicado com o passar dos anos, em virtude do adensar do trabalho e das responsabilidades. Gosto de adormecer a ver séries, de ler (sobre futebol ou não) e de fotografar, e só tenho pena que os dias não estiquem. Durmo pouco, mas já dormi menos.

 

Tem formação em Sociologia, em Economia e em Gestão. Pensou enveredar por alguma destas áreas ou a sua prioridade sempre foi o futebol?

 O meu desejo sempre foi trabalhar em futebol, não dispensado a formação e a busca de mais conhecimento em diferentes áreas. Se não trabalhasse em futebol, gostava de escrever, fazer música ou representar em circuitos alternativos, o mais distantes possíveis das telenovelas e seriados. Provavelmente, acabaria por conciliar as três coisas, sabendo que a música permite desenvolver as outras duas. Tenho formação em Sociologia, Economia e Gestão, mas não sou licenciado. Como estou no quarto ano dos três cursos, é possível que, com as transformações que o ensino superior tem sofrido, já seja licenciado. Como preferi sempre a formação a ser licenciado, a conclusão e o que acarretaria nunca foram prioridades para mim. Bem pelo contrário. Encerrei a minha cadeira académica em 2006 e, provavelmente, se tivesse continuado, já estaria num quinto ou sexto curso, já que gosto de aprender, aprender, aprender sempre. Se um dia regressar, será para concluir Sociologia, até porque foi o único curso que me deu prazer, e só me deve faltar a tese.

 

Como e quando nasceu a sua paixão pelo futebol?

A resposta pode soar um pouco a cliché: desde que me lembro. Cresci em Vila do Conde, no seio de uma família que não ligava nada a futebol, apesar do meu Avô ter sido sócio da Académica, durante o seu percurso universitário em Coimbra, e de assumir um fraquinho pelo Sporting, muito por culpa do irmão mais velho, felizmente ainda vivo, ser adepto do Benfica, e da minha Avó, curiosamente por causa do ciclismo, até porque detestava futebol, e da cor vermelha, ter um fraquinho pelo Benfica. A exceção era o meu Tio, que acabou por me passar o bichinho pelo futebol, e “obrigava-me”, quase como se fosse um professor primário, a saber os nomes dos jogadores a partir dos Cadernos d’A Bola e das cadernetas de cromos. Foi assim que nasceu a minha paixão pelo futebol. Paixão com p maiúsculo. Lembro-me do dia em que o meu Avô me ofereceu uma bola de futebol: uma bola amarela do Euro’1980, que creio que ainda resiste, mesmo muito desgastada e acastanhada pela terra batida, no meu sótão em Vila do Conde. Tinha três anos. Depois, como morávamos a menos de 500 metros do Estádio da Avenida, numa altura em que o Rio Ave dava os primeiros passos na 1ªDivisão, as minhas primeiras memórias futebolísticas passam por aquele pelado. A explosão da minha paixão prolonga-se do Avenida e do Rio Ave ao campeonato português do início da década de 1980 e, principalmente, às grandes competições internacionais da minha infância: Mundial’1982, Europeu’1984, e Mundial’1986. Ah, e, como é óbvio, ao pontapé na bola. No sótão, onde procurava recriar as jogadas dos meus ídolos, nos paralelos da rua, por vezes entre carros estacionados, nos campos de terra abandonados, e no recreio da escola, com os meus colegas de turma, também eles cruciais para o alimentar da paixão, para desespero da professora Cândida, que não gostava nada de nos ver suados.

 

É normal, em várias intervenções, vê-lo citar o Brasil de 1982 como uma referência. Na altura, já se interessava pelos detalhes táticos do futebol?

O Brasil de 1982 é o expoente máximo do futebol poema. Solto, diria mesmo demasiado solto, de amarras defensivas, e concentrado no esplendor do futebol espetáculo, combinando um futebol associativo e enleante, muitas vezes carburado a um-dois toques, com a criatividade esdrúxula, repleta de adornos técnicos superlativos e de definições soberbas, das suas unidades de maior qualidade técnica. Tinha cinco anos, mas, como aprendi a escrever e a ler muito cedo, já tinha completado a 1ª classe. Isto para explicar que, mesmo não tendo qualquer preocupação na leitura do jogo, já não me satisfazia saber se o jogador era apenas defesa, médio ou avançado, isto porque o guarda-redes, à partida, só poderia ser guarda-redes. Anotava se jogava como defesa-central (e de que lado), lateral-direito, lateral-esquerdo, médio de cobertura, médio-ofensivo, extremo-direito, extremo-esquerdo ou avançado-centro, por exemplo. Mas também o fazia para o campeonato português, já que, às segundas, após a escola, ia com o meu Avô comprar “A Bola”, num tempo em que os jornais só chegavam a Vila do Conde ao final da tarde.

 

Quais foram as equipas, as seleções, para além do Brasil de 1982, os jogos, os jogadores e os treinadores que mais marcaram a sua infância?

A seleção portuguesa que disputou o Euro’1984 marcou-me profundamente, até por ter sido a primeira vez que vi Portugal numa grande competição internacional. É complicado explicar o que isso significava, mas quem é da minha geração teve o privilégio de ver a seleção portuguesa em duas competições internacionais – 1984 e 1986 – na infância, mas já éramos adultos quando voltamos a viver essa emoção, que, nas duas últimas décadas, tornou-se normal. Anormal, no fundo, para as gerações a seguir à minha é falhar um apuramento. Contudo, os excelentes trajetos em Mundiais e Europeus nos escalões de base amenizaram uma década de ausências e faziam-nos sonhar. O Portugal – França, disputado numa noite (triste) de São João, e o Brasil – Itália, no Mundial 1982, são jogos que me marcaram imenso. Até pela forma como terminaram: com a derrota das equipas pelas quais torcia. Os meus futebolistas preferidos na infância foram Fernando Chalana, Diego Armando Maradona e Paulo Futre, mas também Bento, Dassaev, Júnior, Edinho, Falcão, Tardelli, Carlos Manuel, Schuster, Sócrates, Zico, Littbarski, Madjer e Jordão. Em relação a treinadores, Johan Cruyff e Quinito, acima de todos, mas também Sven-Goran Eriksson, Cesar Luis Menotti, Rinus Michels, Valeri Lobanovskiy, Manuel José, Artur Jorge, Toni e Joaquim Meirim. Por fim, as equipas: o Benfica, de Eriksson, que se sagrou bicampeão nacional em 1982/83 e 1983/84; o Rio Ave, na primeira metade da década de 1980, principalmente a equipa que chegou à final da Taça de Portugal em 1984; o FC Porto, de Artur Jorge, que se sagrou campeão europeu em 1986/87; e o Benfica, de Eriksson e Toni, que perdeu a final da Taça dos Campeões Europeus em 1989/90. No futebol internacional, na década de 1980, fiquei muito preso às noites europeias e às míticas finais da Taça de Inglaterra, o que fez com que gostasse do Tottenham e do Liverpool. Depois, havia também as equipas que eram treinadas por Cruyff, e as estruturas com apenas 3 defesas que me apaixonavam, o Nápoles, de Maradona, ou o Atlético de Madrid, de Paulo Futre.

 

Que influência teve o seu Tio, João Malheiro, antigo diretor de comunicação do Benfica e um apaixonado por futebol, na sua entrada no meio desportivo?

O meu Tio, como referi anteriormente, foi o grande responsável pela minha paixão pelo futebol, pelos seus protagonistas (jogadores e treinadores), pela memória e pela análise do jogo, até porque a minha infância coincide com o período em que se afirmou como jornalista desportivo no jornal “O Jogo”, na Rádio Comercial e na RTP. Nada foi forçado, apesar de me “obrigar” saudavelmente a saber o nome dos jogadores, que era um exercício que adorava. No fundo, tudo surgiu com a mesma naturalidade com que me proporcionou ouvir discos de Bob Dylan, Leonard Cohen, José Afonso ou Sérgio Godinho na infância. Isto permitiu-me, entre muitas coisas, ter acesso aos relvados/pelados e, acima de tudo, conhecer os protagonistas que via nas cadernetas e nos resumos do Domingo Desportivo. Graças a ele, tive a oportunidade de perceber que os meus ídolos eram reais e realizei sonhos que achava impossíveis: falar com o rei Eusébio, conhecer e ouvir histórias de muitos antigos internacionais das décadas de 1950, 1960 e 1970, assim como de grande parte dos treinadores que orientavam os clubes portugueses no início da década de 1990, e de jornalistas desportivos que ouvia na rádio, via na televisão ou lia nos jornais; pisar o mítico pelado do Avenida, conviver com os jogadores e treinadores do Rio Ave na década de 1980, percebendo o que é o “cheiro do balneário”; trocar uns passes, no antigo campo número 2 do velho Estádio da Luz, com Fernando Chalana, o meu grande ídolo de infância, ou fazer uma assistência para golo, num ringue na Póvoa de Varzim, para Fernando Gomes, o bibota de ouro.

 

É leitor e colecionador de imprensa desportiva deste muito jovem. Como conseguia aceder a publicações de outros países na década de 1980?

Não era nada fácil, sobretudo até ao final da década de 1980. Mas a maior parte do acesso que tive, até aí, a imprensa estrangeira foi através do meu Tio, que estava nos primeiros anos da sua carreira como jornalista desportivo. No final da década de 1980 e durante a década de 1990, passei a ter acesso a revistas e jornais com mais facilidade. Em Vila do Conde ou na Póvoa de Varzim, onde começaram a chegar revistas de futebol internacional, mas também em Caminha, onde conseguia encontrar com alguma facilidade, durante as férias de verão, anuários espanhóis, franceses ou alemães, ou no Porto e em Lisboa, por intermédio do meu Tio. Para além disso, em 1990, o meu Avô ofereceu-me uma parabólica rotativa e, a partir daí, tudo mudou. Passei a ter acesso a jogos de todo o Mundo e a seguir intensamente o futebol internacional, vício que já começara a adquirir, anos antes, com o acesso a canais televisivos espanhóis e italianos, mas também nas célebres quartas-feiras europeias. Mas o dia de grande apoteose durante a década de 1980 era o do lançamento dos Cadernos da Bola. Nessa altura, estava sempre de férias e, perto do fim da tarde, o meu Avô levava-me a Caminha, já que por norma estávamos em Lanhelas ou em Moledo, onde esperávamos a chegada do comboio que trazia o jornal.

 

Com apenas 16 anos entra para a equipa técnica do Rio Ave. Estava preparado para o desafio? Foi inovador ou limitava-se a fazer o que lhe pediam?

A minha história no futebol profissional começa no verão de 1993, mas os anos anteriores foram muito importantes para estar preparado para o desafio. Ter a possibilidade de ver futebol, a partir dos 13 anos, com Duarte Sá, antigo capitão e treinador do Rio Ave, foi um verdadeiro manual de aprendizagem que me fazia ansiar pelo fim-de-semana seguinte, por uma quarta-feira europeia ou por uma competição internacional de seleções. Isso permitiu-me ver uma quantidade infindável de jogos nacionais e internacionais, no estádio ou através da televisão, com o capitão Duarte, o que foi crucial para compreender muito melhor o jogo e os seus momentos, o que melhorou substancialmente a minha capacidade de análise e também a forma como passei a praticar futebol: maximizando as minhas maiores qualidades ao serviço do coletivo e procurando camuflar as minhas principais lacunas. Diria que não foi apenas a sua experiência em campo que foi determinante, mas também a forma exímia como lê o jogo, antecipa situações e desvenda pormenores que acabam por ser pormaiores. Para além disso, é um fantástico contador de histórias, com um sentido de humor admirável, o que me permitiu compreender uma série de situações que desconhecia e que já não foram surpresa quando iniciei o meu percurso no futebol profissional. Aí, era um miúdo de 16 anos, sócio e adepto do Rio Ave, e decidi seguir vários treinos durante a pré-época para poder evoluir em termos de conhecimento a esse nível. Aliás, já o fizera, nas duas épocas anteriores, quando o clube tinha como treinadores Augusto Inácio e Vieira Nunes. O treinador da altura, José Rachão, achou estranho ver um miúdo a tomar notas e, no final de um treino, veio falar comigo, creio que a pensar que seria um observador de uma equipa adversária. Depois de uma conversa em que percebeu o que estava realmente a fazer, perguntou-me qual seria o onze que o Leça iria apresentar contra o Rio Ave no jogo de estreia da Liga de Honra. Ficou impressionado com a minha resposta e falou com o presidente Paulo de Carvalho sobre a possibilidade de ser incorporado na equipa técnica como observador das equipas adversárias. Foi o que aconteceu, durante toda a época, quer com José Rachão, quer com Quinito, que o substituiu a meio da época. Ficamos em 4º lugar, numa temporada marcada por várias arbitragens escandalosas, a dois pontos do 1º e a um ponto de 2º e 3º classificados. Depois de dois anos a colaborar com o mestre Quinito, mas também com outros treinadores, o engenheiro Paulo de Carvalho, que regressara à presidência do Rio Ave, contactou-me, no verão de 1996, a averiguar sobre a minha disponibilidade para voltar a colaborar com ele e com o clube, que acabava de regressar à I Liga. Como é natural, aceitei imediatamente. Nesse período, entre 1996 e 2000, as minhas funções passaram pela análise de adversários, aqui em colaboração direta com Carlos Brito e Lúcio Pereira, pela prospecção de reforços, e por fazer, em todos os jogos em casa, uma ficha para a comunicação social com as estatísticas do Rio Ave e dos adversários, algo incomum na época. Não sou a pessoa indicada para fazer avaliações, mas creio que todos os trabalhos devem conjugar esses princípios: fazer o que nos é pedido (ou aquilo que sabemos que é pretendido) e procurar sempre melhorar de trabalho para trabalho; e estar sempre disponível para criar e inovar, o que, nesse tempo, passou também pela informatização da informação.

 

Pode explicar-nos um pouco do seu percurso profissional após a passagem pelo Rio Ave?

Assim que saí do Rio Ave, no final da temporada 1999/00, senti necessidade de fazer uma paragem no futebol. Tinha 23 anos, decidi mudar de curso, de casa, e de cidade, o que me permitiu explorar outras áreas, conhecer mais pessoas, e desfrutar de fins-de-semana com mais música do que futebol, que passei a assistir, muitas vezes, no café, na tasquinha ou no restaurante. Mas o bichinho manteve-se, através do contacto com alguns treinadores, de colaborações pontuais com o Rio Ave, do trabalho de pesquisa para o Championship Manager, e, posteriormente, com a explosão da blogosfera, com um projeto de grande sucesso que criei com amigos: o Terceiro Anel. O regresso aos clubes deu-se, em 2005, na prospecção nacional e internacional do Boavista, em colaboração com João Freitas, responsável máximo pelo futebol, e que resultou, por exemplo, nas aquisições de jogadores como Roland Linz, Kazmierczak ou Grzelak. Depois, iniciei uma colaboração com Paulo Sousa, que esteve na origem do "Anuário do Futebol Mundial", que teve duas edições (uma em livro, outra publicada online), e de vários trabalhos de análise de jogadores e de equipas nos clubes pelos quais passou. Também investiguei, com o precioso auxílio de vários amigos, o passado do futebol português, o que resultou numa base de dados com todo o passado da I Divisão, Liga de Honra (II Liga) e Seleção A; colaborei com outros treinadores, em diferentes continentes, com a Wyscout, a maior plataforma vídeo de scouting do Mundo, e com diferentes órgãos de comunicação social, como a RTP, a Antena 1, a Antena 3, a TSF e o jornal "O Jogo", onde escrevi, em duas etapas, antes de rumar, em janeiro de 2014, ao jornal "Record". Neste momento, para além de ser analista e colunista no "Record", sou analista/comentador de futebol da RTP no programa "Grande Área" (RTP3), e chief-scout da plataforma de scouting Talent Spy.

 

Quando faz sentido um clube ter um gabinete de scouting?

Mais do que um gabinete, e a sua importância pode ser crucial para deixar o clube mais próximo do sucesso, acreditando que deve existir em todos os clubes profissionais, é a necessidade imperiosa do clube fazer scouting e organizar criteriosamente essa informação. Isto porque o scouting, bem mais do que o anglicismo que está na moda, é a conjunção de análise, observação e prospecção, o que deve ser feito por todos os clubes: com ou sem gabinete/departamento. É certo que a tendência da maior parte das pessoas é a de associar quem faz scouting a uma espécie de caça-talentos do futebol, como se se tratasse de um mega talent-show em que se procura encontrar o novo Cristiano Ronaldo e o novo Messi. Não é esse o meu ponto de vista. Divido o scouting em duas áreas: observação de equipas e observação de jogadores. A partir daí, cada pessoa ou grupo que trabalha nesse universo tem a sua metodologia, que também depende das funções que desempenha: ou seja, se trabalha num clube ou com um treinador, numa agência de jogadores, numa agência de scouting ou se escreve numa publicação. Enquanto trabalhei com clubes, defendi sempre a ideia que, para fazer uma observação de jogadores externos, deves conhecer primeiro a tua equipa e os teus jogadores, de forma a perceberes o que pode ser uma mais-valia em relação ao que tens e dentro da estrutura tática e do modelo de jogo preconizados pelo treinador. Hoje, fora do âmbito dos clubes, eu e a minha equipa não fazemos observação de jogadores descontextualizada da análise do coletivo e do contexto competitivo em que está inserido, até porque é fundamental não só perceber os seus pontos fortes, “médios” e fracos, como também compreender em que estruturas táticas e modelos de jogo melhor (ou pior) se enquadram, adindo aquela que achamos que poderá ser a sua capacidade de resposta e enquadramento numa realidade competitiva diferente. Quando fazemos uma análise a uma equipa, compilamos uma série de informação, tanto coletiva como individual, para além de uma análise exaustiva ao que definimos como 6 momentos do jogo, para que quem contrata os nossos serviços, que também é alvo de estudo, saiba o mais detalhadamente possível quem irá defrontar, sublinhando, como é natural, aquilo que expomos como as suas principais forças e fragilidades.

 

Gosta mais de observar um jogador individualmente ou observar uma equipa? Que relatório gosta mais de fazer?

Tal como disse há pouco, considero as duas análises indissociáveis. Para mim, não existe uma sem a outra. Não tenho preferências na produção de relatórios, mesmo sabendo que um relatório de equipa é mais trabalhoso e moroso do que um relatório individual. São ambos prazerosos, exigem a mesma concentração e sagacidade na leitura do jogo, e a mesma competência e empenho na produção do trabalho escrito e na recolha de imagens estáticas e vídeo.

 

Hoje em dia, as maiores equipas já têm o seu departamento de scouting. Ainda assim, pedem-lhe relatórios avulso?

As minhas actividades relacionadas com o scouting estão canalizadas para o Talent Spy. No seu desenvolvimento, após o trabalho de criação desta versão e do seu aperfeiçoamento permanente, mas também em questões relacionadas com a sua apresentação ao público e a potenciais clientes, e, principalmente, na produção, em conjunto com a minha equipa, de relatórios de observação e avaliações de perfil que são disponibilizados aos clientes através da plataforma. Contudo, isso não impede que pontualmente efetue alguns relatórios de equipas e jogadores a pedido, e é normal, em fases pré-mercado e durante o mercado, ser contactado por vários treinadores - com alguns tenho uma relação de amizade que vai além do futebol - e por alguns agentes e dirigentes.

 

Fale-nos um pouco sobre o seu trabalho como chief-scout do Talent Spy e no que consiste a plataforma.

O meu primeiro contato com a equipa do TALENT SPY aconteceu, no início de setembro de 2013, no colóquio “O Futuro do Futebol Português”, organizado, em Barcelos, por André Barros e Ricardo Coutinho, onde tive o prazer de estar presente como orador. Ficou, logo aí, a vontade de estabelecermos um contacto posterior, até porque a F3M, a empresa mãe da plataforma, liderada pelo engenheiro Pedro Fraga, tem sede em Braga, cidade onde resido. Ao longo de dois meses, as reuniões entre a minha equipa e a do TALENT SPY intensificaram-se, o que permitiu perceber o espírito coletivo, a vontade de fazer mais e melhor, e o fino trato de todos os elementos, condições determinantes para que estabelecêssemos uma parceria. Desenhamos um plano, estudado e estruturado minuciosamente, que permitiu desenvolver a plataforma e torná-la ainda mais forte, explorando o know-how da equipa que coordeno nas diferentes áreas do futebol, de encontro a uma versão que ficou designada por 2.0. Devo sublinhar que o trabalho de base que nos foi apresentado era de grande qualidade, mas o TALENT SPY tinha sido pensado para ser uma plataforma de scouting destinada ao futebol jovem e amador. Mas percebemos que tinha um potencial incrível e uma margem de evolução colossal, como se está a confirmar através de dois anos de muito trabalho no desenvolvimento e aperfeiçoamento da plataforma, para se tornar na mais completa ferramenta de gestão de um clube de futebol e de uma agência de jogadores, como também num instrumento de extrema utilidade para treinadores e treinadoras, futebolistas, jornalistas, analistas e apaixonados pelo jogo. Como referi há pouco, o trabalho da equipa que coordeno, e de que fazem parte Gil Sousa, Joachim Rodrigues, José Pedro Teixeira e Francisco Costa, tem sido repartido entre o redesenhar, desenvolvimento e aperfeiçoamento da plataforma, que agora permite fazer uma análise e um acompanhamento detalhado de jogadores, equipas e competições; por questões relacionadas com a sua apresentação, estando prevista, ainda este mês, uma ação de formação, coordenada por Gil Sousa, que se irá realizar em Angola, e onde estarão presentes elementos dos principais clubes do País; e, principalmente, na produção de minuciosos relatórios de observação e avaliações de perfil de jogadores, e de relatórios de análise de equipas e seleções, que são disponibilizados aos clientes através da plataforma. O TALENT SPY está disponível em www.ftspy.com, já possui utilizadores de 80 países, entre os quais clubes e agências de elevado prestígio (alguns podem ser consultados aqui: www.ftspy.com/clients ), e aconselho vivamente que o explorem, até porque poderão experimentar, durante um mês, uma versão gratuita, mas que disponibiliza uma base de dados com 95 mil jogadores, 5 mil clubes e 250 competições de 50 países.

 

Como é o dia a dia de um scouter?

Não creio que haja um padrão. Depende sempre de inúmeros factores: estar ou não a trabalhar a tempo inteiro; o tipo de trabalho que se está a efetuar; com quem ou para quem se está a trabalhar; se estamos no terreno, dentro ou fora do País, o que também é muito importante para estabelecer novos contactos, conhecer outras realidades e fomentar o nosso conhecimento, ou no gabinete/escritório; e, muitas vezes, da nossa disponibilidade mental para analisar e absorver informação. O que me parece crucial é ver e analisar muito futebol, de diferentes latitudes e divisões, sempre sem pré-conceitos e estando perfeitamente conscientes do que pretendemos encontrar. Para além disso, acho que é determinante ler bastante e discutir ideias sem pruridos, pois a aprendizagem é um processo contínuo e inesgotável.

 

Que ferramentas um scouter tem de ter ao seu dispor para realizar um trabalho de qualidade?

Acima de tudo, o cérebro. É a partir dele que desenhamos o modelo de trabalho que nos deixa mais confortáveis e que nos permite atingir melhor rendimento. Um modelo que, do meu ponto de vista, deve ter uma base sólida, mas a partir daí deve estar sempre aberto, pois a análise individual e coletiva não pode ser vista como algo estanque e imutável. Bem pelo contrário. O que vamos observando, ouvindo, lendo, conversando e partilhando, dia após dia, é muito importante para fazermos mais interrogações sobre o jogo e sobre os jogadores, que podem robustecer o modelo. É a partir da base do modelo que devemos definir as nossas necessidades a nível de ferramentas, e, mais uma vez, cada caso é um caso. Podes utilizar folhas ou blocos de notas, ou preferir, por exemplo, inserir, de imediato, as tuas notas num formato digital. Podes precisar de uma base de dados digital devidamente organizada, de uma plataforma de vídeo que te ofereça uma panóplia de jogos, de uma ferramenta, como o VideoObserver, para partir as diferentes ações do jogo, e outra para recolher – ou oferecer-te – (destaco a OPTA, utilizada pelo site Goalpoint) as estatísticas individuais e coletivas detalhadas de um jogo (ou competição), ou de editores de texto, de números, de imagens e de vídeo. Da mesma forma que podes dispensar tudo isto ou a maior parte destas coisas, pois não precisas delas – ou de grande parte delas - para aplicar o teu modelo. Creio, no entanto, que uma plataforma como a Wyscout, pelo acesso rápido a um impressionante arquivo de vídeo (atualizado quase ao minuto), ou o Talent Spy, como organizador da informação que recolhes, são extremamente importantes, mas também não dispenso os blocos de notas e os apontamentos em folhas soltas, sobretudo numa altura como esta em que estou a refletir e a escrever bastante sobre a análise individual de jogadores, partindo da visão global para a específica (por posição no terreno de jogo). Mas, regressando ao Talent Spy, uma das suas maiores riquezas, que procuramos desenvolver o mais possível, é a capacidade de oferecermos aos nossos clientes um modelo de partida com inúmeras cambiantes. Não está ali o modelo do Gil, do Joachim, do Zé Pedro, do Francisco, ou do Rui, mas sim uma plataforma que te permite explanar e explorar de forma ilimitada o teu modelo de análise individual e colectiva. Vejamos: para nós, o jogo tem 6 momentos, mas se para ti tem 4, 3 ou 2, a plataforma permite-te criar o modelo que pretendes. Outro exemplo: se preferes fazer análise de jogadores apenas qualitativa ou apenas quantitativa, ou então um misto das duas, a plataforma está pronta para te dar resposta às tuas necessidades. Depois, podes também definir as dimensões e colocar, dentro destas, as características que consideras fundamentais para analisar os jogadores sobre cada prisma, mas também podes fazer a mesma análise por momentos do jogo, se é esse o teu método de trabalho. Da mesma forma que podes utilizar a plataforma para funcionar como uma mera base de dados (mais do que isso, pois já tens 95 mil jogadores à tua disposição) que te permite organizar a informação atual ou antiga que tens nos blocos ou em recortes, de forma a que te seja possível acederes, tomando as notas que te interessam (informações sobre o jogador, dados biográficos, lesões, castigos, acompanhamento das redes sociais, histórias, imagens, vídeos), ou criar um modelo que te permite fazer uma análise estatística de jogadores e clubes, que pode complementar a análise qualitativa e quantitativa, ou, se assim entenderes, substituí-la. Como também podes explorar, através da ficha do jogo, a descrição das jogadas que te interessam, dos golos, dos remates, das assistências para finalização, das defesas e das faltas (entre outras), adicionando vídeos, imagens ou um gráfico de terreno de jogo que criamos e temos vindo a desenvolver.

 

Já o ouvimos dizer que teve trabalho na liga Iraniana, Húngara, Italiana, Francesa etc etc.. quem lhe solicita esses trabalho? Treinadores? Equipas? Empresas?

No meu caso, foram treinadores/selecionadores, ainda que direcionados para o desenvolvimento dos seus trabalho nos clubes/seleções, agências, e plataformas de scouting, como o Talent Spy, onde tenho desenvolvido trabalho de análise, durante os últimos dois anos, com a minha equipa, e a Wyscout, onde estive, em 2013, a produzir relatórios individuais de jogadores do campeonato português, espanhol (I e II), inglês (I e II), húngaro, ucraniano, e do futebol asiático. A Liga iraniana, em virtude de um trabalho muito exaustivo de análise de todos os clubes que me foi encomendado, talvez tenha sido o campeonato mais exótico que acompanhei com profundidade. Mas já vi jogos de campeonatos que considero ainda mais exóticos. Algumas vezes, por mera curiosidade. Outras, por trabalho, mas sem a profundidade com que tive de acompanhar o campeonato iraniano.

 

Neste momento e sabendo que já esteve ligado a um clube, gostaria de trabalhar num gabinete de scouting de um grande clube?

Aquilo que me interessa não é se o clube é grande, médio ou pequeno, mas sim o projeto que me é apresentado, a abertura às minhas ideias, as funções que terei que desempenhar, e as pessoas com quem irei trabalhar, num departamento onde considero crucial existir um ambiente de enorme confiança e partilha de ideias, dentro do espírito de “Um por todos, Todos por um”. No último verão, rejeitei uma proposta de um grande clube europeu, pois o projeto que me foi apresentado, apesar de financeiramente ser muito interessante, não correspondia ao que pretendia. De resto, estou extremamente feliz a fazer o que mais gosto no Record e na RTP, como também no Talent Spy, que me permite trabalhar como gosto: com a minha equipa.

 

Qual a sua maior descoberta? E a maior desilusão?

A minha perspetiva do scouting é sempre coletiva, nunca é individual. Quando se acerta, acertamos todos. Quando se falha, falhamos todos. Ou seja, a descoberta ou o sucesso na aquisição, tal como o erro na análise ou o fracasso na aquisição, resultam de um trabalho de equipa com vários rostos, e, muitas vezes, há contratações que são feitas, tendo em conta enormes limitações orçamentais, com a perfeita consciência que se corre o risco de não se ser bem sucedido. Mas, a esse propósito, posso contar uma história engraçada, até por já ter sido tornada pública, que diz respeito ao costa-marfinense Dibo, eleito pelos adeptos do Rio Ave como o melhor jogador de sempre do clube. A hipótese do Dibo jogar no Rio Ave foi colocada ao presidente Paulo de Carvalho já com a pré-época 1996/97 em andamento, após um particular no terreno do União de Lamas. No final desse jogo, já em Vila do Conde, o Presidente mostrou-me os dados que tinham sido enviados, por fax, ao Rio Ave, e havia a hipótese do jogador passar por um curto período à experiência. Na altura, ainda pré-internet, fiquei de fazer uma investigação sobre o passado do jogador. Como era leitor da France Football, encontrei vários jogos do Dibo nas divisões inferiores francesas, ao serviço do Grenoble e do Ajaccio, com notas, muitas vezes, a variarem entre o 1 e o 4 (numa escala de 0 a 5), alternando jogos medíocres com outros em que as suas acções tinham sido determinantes, o que me intrigou e fez com que aguçasse o meu “apetite”. Lembro-me também de ter descoberto a sua passagem falhada pelo futebol dinamarquês, que surgia com dados mais excitantes no currículo enviado ao Clube: algo muito normal nesse período e que se repetiu, com frequência, durante essa pré-temporada com outros jogadores que foram “oferecidos” por empresários. Apresentei um relatório ao Presidente e, na altura, pareceu-nos que podia ser uma aposta muito interessante e sem grandes riscos, até porque viria à experiência e a qualidade técnica do jogador era amplamente elogiada pela France Football. É certo que o Dibo não se apresentou nas melhores condições físicas, pois estava com peso a mais, mas era notório que tinha qualquer coisa que o diferenciava. Acabaria por comprovar toda a sua qualidade na segunda volta do campeonato, ajudando-nos a protagonizar a mais sensacional recuperação da história do campeonato português, e na primeira metade da temporada seguinte, em que o Rio Ave andou muito tempo no segundo e no terceiro lugar. Para quem não se recorda de Sob Evariste Dibo, deixo um vídeo com a sua magia (http://youtu.be/eJVZyXHpERE), sublinhando o mérito do presidente Paulo de Carvalho ao assumir a aposta na aquisição.   

 

Consegue ver um jogo como adepto, amante do futebol ou está sempre a analisar e a trabalhar?

Como apaixonado por futebol, vejo sempre, pois é esse o mote que me faz ver uma final da Liga dos Campeões com o mesmo entusiasmo com que vejo um jogo do Campeonato de Portugal num domingo à tarde. Como adepto, muito raramente, pois não misturo análise e trabalho com amizades, gostos e preferências de clube. Mas a concentração na análise não me inibe de reagir emotivamente a uma grande jogada que termina em golo, a um passe de rutura, a um desarme espetacular, ou a uma defesa prodigiosa do guarda-redes. Como também a um erro garrafal ou a uma falta dura. Só que sem ligar aos emblemas.

 

Actualmente é analista no jornal Record e comentador na RTP. Onde se vê daqui a 5 anos? Onde se sente mais confortável?

Gosto mais de fazer o exercício contrário: há 5 anos, estava a terminar de escrever o meu segundo livro, colaborava, como gestor e produtor de conteúdos para as redes sociais, com a Grande Área (RTP), e fazia trabalhos de observações para vários treinadores. Como é óbvio, não me passava pela cabeça que, cinco anos depois, a minha vida tivesse dado tantas voltas, e não me imaginaria, por exemplo, a fazer televisão ou a escrever num jornal de enorme difusão. Para mim, fazer o que gosto e com quem gosto foi, é e será sempre o mais importante, da mesma forma que sei de onde vim e quem contribuiu de forma determinante para que os meus sonhos falassem. Escrevo no Record, sou comentador de futebol na Grande Área da RTP, e trabalho como chief-scout do Football Talent Spy, além de fazer alguns trabalhos avulsos para treinadores e entidades, e estou muito feliz, porque continuo a sentir o mesmo entusiasmo do primeiro dia, sempre com uma vontade indómita de fazer mais e melhor. De resto, no futebol, como na vida, sigo os conselhos sábios do meu Avô. Aprendi a viver o momento, não tenho ambições desmedidas e não faço grandes planos, mas gosto de desafios, principalmente os que exigem superação; e tento desfrutar ao máximo da possibilidade de fazer aquilo que gosto de forma apaixonada, o que, lamentavelmente, é cada vez menos normal nos nossos tempos. Trabalhar, trabalhar, trabalhar e aprender sempre, com todas as pessoas e com todas as coisas, sem nunca perder a noção que o coletivo está sempre à frente do individual, é o meu lema. A minha visão sobre o futuro é similar à do Pequeno Aquiles: se o futuro estiver muito longe é porque sabe que é onde vou chegar.

 

Qual a sua opinião sobre o nosso Site? Quer deixar uma mensagens aos muitos treinadores que nos visitam e que procuram o seu lugar no futebol?

 Acho que os princípios de partilha de conhecimento, ideias e experiências, tendo a paixão pelo jogo como mote, que norteiam o WiCoach são louváveis e um caminho a seguir. É fantástico existir um espaço como este que permite mostrar trabalhos, mas também aglutinar informação para absorver, refletir e discutir, aspetos que considero cruciais na análise do futebol, e na nossa evolução diária, pois não acho que existam donos da razão. Em relação aos potenciais treinadores e scouts, espero que aproveitem esta plataforma para divulgarem trabalhos, para partilharem e discutirem ideias, e paracolocarem questões, inquietações e esclarecerem dúvidas (todos as temos). Não desistam dos vossos sonhos, mesmo quando se depararem com muitas barreiras pelo caminho. Resistir é vencer!

 

Muito Obrigado pela colaboração

 

 

 

 

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